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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Entrevista à Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Federação Anarquista do Rio de Janeiro
Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Realizada por Jonathan Payn
(Frente Anarquista Comunista Zabalaza – ZACF, África do Sul)

Agosto a outubro de 2010

A Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) é uma organização específica anarquista da cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Fundada no dia 30 de agosto de 2003, a FARJ identifica suas origens na atuação de militantes como Ideal Peres (1925-1995), seu pai Juan Perez Bouzas (ou João Peres) (1899-1958), José Oiticica (1882-1957) entre outros. Também possui referências nas organizações políticas como a Aliança Anarquista, fundada em 1918, e o Partido Comunista libertário, fundado em 1919 (não confundir com o Partido Comunista reformista e eleitoral fundado em 1922). Possui também referências históricas nos sindicatos influenciados pelos anarquistas no início do século XX, como a Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ), fundada em 1906, em todo o caminho de busca do “vetor social do anarquismo” das décadas de 40, 50, e nas atividades pós-ditadura militar.

Jonathan (Jon): Para os leitores não familiarizados com o conceito de dualismo organizacional, vocês poderiam explicar por que a necessidade de construir uma organização política anarquista no Rio de Janeiro? E que tipo de processo que vocês tiveram que atravessar para chegar a essa conclusão e para formar a FARJ?

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ): O termo dualismo organizacional, como se utiliza em inglês (organizational dualism) serve para explicar a concepção de organização que defendemos, ou o que classicamente se chamou da discussão entre “partido e movimento de massas”. Em suma, nossa tradição especifista, tem suas raízes em Bakunin, Malatesta, Dielo Truda, Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e outros militantes/organizações que defenderam essa diferenciação entre os níveis de organização. Ou seja, um nível amplo que chamamos de “nível social” que é composto pelos movimentos populares e o que chamamos de “nível político” que é composto dos militantes anarquistas que se agrupam sob bases políticas e ideológicas definidas.

Esse modelo baseia-se em algumas posições: de que os movimentos populares não podem estar dentro de um campo ideológico definido – e, nesse aspecto, nos diferenciamos dos anarco-sindicalistas, por exemplo; que eles devem se organizar em torno das necessidades (terra, teto, emprego, etc.) agregando amplos setores do povo. Esse é o nível social ou dos movimentos de massa, conforme se chamou historicamente. O modelo também sustenta que para o trabalho nos movimentos, não basta estarmos dissolvidos, ainda que nos reconhecendo como anarquistas, dentro deles. É necessário que estejamos organizados, constituindo uma força social significativa que nos facilitará a promoção de nosso programa e também da defesa dos ataques de adversários que possuem outros programas. No entanto, deve-se ter em mente que não defendemos que se participe de um ou outro nível; os anarquistas também são trabalhadores e fazem parte desse amplo conjunto que chamamos classes exploradas e, portanto, eles se organizam, enquanto classe, nos movimentos sociais. Ainda assim, como esse nível de organização possui suas limitações, os anarquistas também se organizam no nível político, enquanto anarquistas, como forma de articular suas idéias e trabalhos.

A chamada organização específica anarquista não é nenhuma novidade no movimento anarquista. Suas origens estão na própria militância de Bakunin no seio da Primeira Internacional com a formação da Aliança da Democracia Socialista em 1868. Malatesta, desenvolvendo a tese da minoria ativa de Bakunin, também pensou em algo semelhante. Da mesma forma os russos exilados do Dielo Truda e a FAU, entre tantos outros. Este agrupamento específico de revolucionários antiautoritários baseia-se nas posições sobre os horizontes (objetivos), estratégias e táticas comuns. Ou seja, a organização específica anarquista não é nenhuma “invenção” recente, mas possui sua trajetória na consolidação do próprio anarquismo enquanto uma ferramenta revolucionária, remontando à atuação de Bakunin.

No desenrolar histórico do movimento anarquista, esta posição foi preterida em diversos países em detrimento de uma posição que dizia que o “sindicalismo” (que abarcava o conjunto dos movimentos sociais) se bastava. Para nós não. Acreditamos que o dever da organização específica anarquista, o que Malatesta chamou de “partido” anarquista, é articular as forças dos anarquistas em torno de uma proposta em comum e estimular que os movimentos sociais avancem cada vez mais para além das suas reivindicações, podendo forjar as bases de uma transformação revolucionária.

É importante frisar que o dualismo organizacional não pressupõe uma relação de subordinação ou hierarquia entre as duas instâncias mencionadas. Na compreensão do anarquismo, a organização específica anarquista e os movimentos sociais são complementares. A relação da organização específica anarquista pressupõe uma relação ética e horizontal, que implica não haver relação de hierarquia nem de domínio sobre as instâncias que esta participa.

No Rio de Janeiro, os chamados anarquistas organizacionistas tentaram fundar organizações específicas anarquistas duas vezes; mas a repressão adiou seu projeto. Esses companheiros intuíam que o refluxo do sindicalismo revolucionário poderia também condenar o anarquismo. E foi exatamente o que ocorreu. O sindicalismo não se “bastou” e com o esvaziamento do sindicalismo revolucionário, o anarquismo entrou em crise, já na década de 30. Na década de 40 e 50, os companheiros do Rio de Janeiro (e também de São Paulo) fundam suas organizações específicas, mas estão completamente isolados dos movimentos sociais e se organizam para reverter este quadro.

Na década de 60, o golpe militar e as condições do movimento anarquista postergaram o projeto da organização específica anarquista no Rio de Janeiro. Com o movimento completamente destroçado pelos anos da ditadura, as décadas de 80 e 90 foram décadas de aglutinação de novos e velhos militantes, feita principalmente pelo trabalho incansável e paciente de Ideal Peres. Era hora não só de retomar velhos debates, mas também as experiências de luta importantes que os anarquistas empreenderam, mesmo que não necessariamente agrupados em torno de uma estratégia comum (ocupações, grupos de educação popular, presença em sindicatos, etc).

No início de 2001, entendemos que era o momento de dar um salto qualitativo, saindo do modelo de “centros de cultura” em torno dos quais vínhamos nos organizando desde os anos 1980 e conformar uma organização política mais adequada para o trabalho com os movimentos. Isso vinha se tornando cada vez mais evidente; era o caminho que deveríamos seguir. Tínhamos algumas experiências com trabalho social e com a decisão de que o anarquismo deveria ter por função impulsionar as lutas populares tornou-se evidente que deveríamos buscar algo com mais organicidade, com mais coesão, enfim, um instrumento que permitisse aprofundar o trabalho da maneira que se mostrava necessária.

Foi então que diversos militantes do movimento anarquista no Rio de Janeiro se reuniram com a intenção de discutir a proposta de fundar uma organização. Eles já tinham certa experiência na militância social, mas faltava discutir qual seria o nosso modelo de organização. Um dos grupos se retirou do processo e resolveu fazer suas próprias discussões separadamente. Posteriormente fundaram a Federação Anarquista Insurreição, que depois se chamou UNIPA (União Popular Anarquista). O grupo que permaneceu e continuou com as discussões constituiu a FARJ em 2003. É importante ressaltar que a FARJ foi conseqüência de um acúmulo de no mínimo uma década anterior, de presença de anarquistas em diversos movimentos sociais no estado do Rio de Janeiro.

Jon: Como vocês vêem seu papel – o papel da organização específica anarquista em relação aos movimentos sociais?

FARJ: O papel da organização específica anarquista é atuar como um catalisador das lutas sociais. Não acreditamos que as organizações políticas devam guiar as lutas ou dirigi-las, como reza a cartilha do marxismo-leninismo. A concepção de minoria ativa de Bakunin nos é muito grata neste sentido. A minoria ativa não impõe, não domina, não estabelece relações de hierarquia ou de mando dentro dos movimentos sociais.

O papel da organização específica anarquista nos movimentos sociais também não é de ir a reboque de todas as posições dos movimentos que integra, mas de difundir e influenciar os movimentos com práticas libertárias (ação direta, autonomia, autogestão, etc), sem “doutrinarismos”.

Isto implica uma enorme responsabilidade e pressupõe uma relação ética com estes movimentos. Isto também nos conduz ao inevitável papel de contribuirmos com a luta contra qualquer tipo de aparelhamento dos movimentos sociais, combatendo a burocracia, estimulando a organização interna do movimento, e trabalhar para que os movimentos caminhem sempre com suas próprias pernas.

Jon: A FARJ faz uma distinção entre trabalho social e inserção social. Poderiam definir os dois?

FARJ: Sim, fazemos esta distinção. Conforme colocamos em nosso programa: “o trabalho social é a atividade que a organização anarquista realiza em meio à luta de classes, fazendo o anarquismo interagir com as classes exploradas”; a inserção social é “o processo de influência dos movimentos sociais a partir da prática anarquista. Assim, a organização anarquista possui trabalho social quando cria ou desenvolve trabalho com movimentos sociais e possui inserção social quando consegue influenciar os movimentos com as práticas anarquistas.”.

Vejamos como podemos explicar mais sobre isso em termos práticos. Para nós, o trabalho mais importante da organização anarquista é funcionar como motor/fermento das lutas dos movimentos sociais, sindicatos etc. e neste sentido, temos sempre como objetivo criar movimentos ou participar de movimentos que já existem.

Pois bem, dizemos que temos trabalho social quando participamos dos movimentos ou criamos movimentos e que eles não funcionam com a estratégia que defendemos. Quando entramos em um movimento como os sem-teto, por exemplo, e desenvolvemos trabalho sem conseguir levar a cabo um projeto próprio, ou seja, uma aplicação prática de nosso programa, estamos realizando trabalho social. O trabalho social é, portanto, estar participando do movimento, mas sem conseguir implementar nosso programa, esse projeto próprio de que falamos. Geralmente, os primeiros passos de uma organização anarquista são sempre de trabalho social, mas é imprescindível buscar, em um segundo momento, a inserção social.

Conforme a definição colocada acima, a inserção social ocorre quando, a partir do trabalho social, a organização anarquista consegue fazer com sua estratégia funcione em termos práticos nos movimentos populares. Na realidade, para nós não basta simplesmente estar nos movimentos e viver a reboque deles; é preciso estar lá com um programa e lutando para que ele seja implementado na prática o máximo possível.

Em nosso programa, nós propomos uma estratégia determinada para os movimentos: em resumo, movimentos amplos sem critérios ideológicos ou religiosos como base para associação; corte de classe nessa associação, ou seja, movimentos forjados sobre setores das classes exploradas; combatividade visando as conquistas por meio das lutas e não pelo colaboracionismo entre classes ou acordos de gabinete; autonomia em relação a indivíduos, organizações e instituições tais como partidos autoritários, Estado etc; ação direta como forma de garantir as conquistas da classe às lutas da própria classe, sem participação nas instâncias da democracia burguesa; tomada de decisão por meio da democracia direta, ou seja, movimentos que se organizem horizontalmente, com tomadas de decisão por todos os envolvidos no processo de luta sem lideranças descoladas da base e afirmando-se sobre a autogestão e o federalismo; finalmente, uma perspectiva de longo prazo que possa impulsionar as conquistas do dia-a-dia e também impulsionar às lutas a um objetivo revolucionário e socialista.

Enfim, quanto mais conseguimos promover essa estratégia dentro dos movimentos, e quanto mais eles funcionam dessa maneira, mais temos inserção social.

Portanto, a distinção é fácil: trabalho social é participar e inserção social é conseguir implementar o programa. O trabalho deve sempre ser o início e a inserção o objetivo buscado nos movimentos.

Enfatizamos os movimentos sociais, pois o trabalho social não é feito a esmo e muito menos podemos considerar qualquer ato de rebeldia, ainda que admirável quando dirigido aos opressores, um trabalho social. Primeiro há a questão do terreno, que é o terreno da luta de classes e das possibilidades colocadas pela organização popular. Se entendemos como protagonistas da revolução o conjunto das classes exploradas, nada mais óbvio do que trabalhar com movimentos constituídos por aqueles/as oprimidos/as pelo capitalismo.

Estes movimentos ou já existem, ou precisam ser criados – esta última tarefa pode partir da organização específica anarquista ou não. O trabalho social necessita de certa sistematicidade. Ou seja, precisa ser regular e se desenvolver sobre bases mais ou menos sólidas e possuir, ou pretender, o chamado recorte de classe. Precisa refletir sobre seus objetivos, sob risco de cair no ativismo pelo ativismo ou de desperdiçar energias necessárias para o avanço das lutas.

Devemos ressaltar que o trabalho social requer muita perseverança e paciência. É necessário, portanto, certa postura. Algo que FAU chama de estilo militante, cujo termo nos é completamente adequado e é algo que começamos a refletir recentemente em maior grau. Não há militância que dê resultado, quando há um descompasso entre as posturas dos/as militantes. Nem de longe, queremos que todos ajam e se comportem de forma homogênea ou se anulem em detrimento do coletivo. Há várias personalidades e temperamentos dentro da organização.

O que pensamos, é que deve haver certos parâmetros do trabalho social que devem ser estimulados dentro da organização específica anarquista. Nossa carta de princípios já define a coluna vertebral da nossa organização, mas o cotidiano do trabalho social pressupõe problemas que não serão resolvidos apenas com abstrações. Para isto é imprescindível que a/o militante não seja um “corpo estranho” exótico/exógeno nos movimentos que pretende fazer (ou faz) parte. É preciso saber escutar, saber ouvir. É necessário ser paciente e acima de tudo muita autenticidade e sinceridade no trabalho realizado. Dar corpo aos valores que defendemos não a partir da verborragia ou da pura doutrinação, mas a partir da caminhada ombro a ombro, da fraternidade e da solidariedade da luta, que se desdobra no cotidiano do trabalho social. Não há como desenvolver trabalho social, se somente consigo interagir, dialogar e me socializar com meus iguais “revolucionários”. Obviamente nenhum/a militante reúne todas as qualidades que antecipamos, mas é a partir das ponderações coletivas que afinamos o tom.

Quanto mais existe esse estilo militante, maior a possibilidade de haver inserção social. Não se trata de ideologizar os movimentos, nem transformá-los em movimentos sociais anarquistas, mas sim de fazer com que estes consigam ir o mais longe possível rumo aos horizontes revolucionários.

Jon: Desde que visitei a FARJ pela primeira vez, em 2005, vocês abriram uma nova frente na organização, que chamam de Anarquismo e Natureza. Brevemente, vocês poderiam descrever as atividades, o foco e a estrutura de cada uma das três frentes, além dos movimentos sociais com os quais elas trabalham?

FARJ: Atuamos nos movimentos sociais a partir do trabalho de nossas frentes. A Frente de Movimentos Sociais Urbanos atua principalmente no Movimento dos Trabalhadores Desempregados – Pela Base, que é um movimento composto por desempregados, subempregados e todos aqueles que sofrem de alguma forma as conseqüências do modo de organização capitalista. O MTD-RJ Pela Base organiza-se em torno das necessidades das comunidades e dos bairros em que está inserido. Atualmente contamos com alguns núcleos, em sua maioria, inseridos em comunidades de periferia e favelas do Rio de Janeiro. No núcleo do Complexo dos Macacos, trabalhamos essencialmente com a educação popular; atuando na organização de um pré-vestibular, que é um curso feito para os estudantes que não podem pagar os altos custos de cursos privados poderem se preparar para o exame de acesso às universidades do estado. Este núcleo, que fica dentro do Centro de Cultura Social, também possui um trabalho de reutilização de roupas e retalhos, que é organizado por uma companheira que morava em uma ocupação que era núcleo do MTD-RJ e foi despejada há cerca de um ano e meio. O núcleo do complexo da Penha trabalha prioritariamente com a questão cultural, especificamente o hip-hop. Há outro pré-vestibular, em que membros do MTD-RJ Pela Base estão inseridos, trabalhando como professores, localizado no Complexo da Maré. E fora da cidade do Rio de Janeiro, temos um núcleo na cidade de Petrópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro; este núcleo está atuando com a questão do transporte e com o trabalho informal. Há muita coisa a ser feita, os núcleos estão em consolidação. O mais importante é que o MTD-RJ Pela Base conseguiu agregar diversos companheiros e companheiras, cujo horizonte primordial é o anticapitalismo e a organização dos movimentos sempre pela base, buscando a autonomia completa de governos, partidos e empresas.

Em menor grau, a Frente de Movimentos Sociais Urbanos atua no Centro Acadêmico de História da UFRJ, por meio de um companheiro estudante. Criar a relação entre o movimento estudantil e os movimentos populares parece imprescindível a qualquer projeto de transformação social, apesar de sabermos, que não é um trabalho fácil. Nossa Frente Comunitária é responsável pela organização do Centro de Cultura Social, que se localiza no bairro de Vila Isabel e atende prioritariamente a comunidade do Morro dos Macacos. Dentro do CCS, há vários grupos e projetos. Oficinas de literatura e cinema com as crianças e adolescentes do Morro dos Macacos, um pré-vestibular como mencionado acima, e que é um trabalho conjunto de três grupos (MTD-RJ Pela Base, CCS e Luz do Sol), oficina de educação ambiental e reutilização de materiais, venda de roupas usadas a preços populares para a comunidade, cursos de informática, e por fim, a Biblioteca Social Fábio Luz.

Atualmente estamos trabalhando como professores e apoios no pré-vestibular do espaço, que atende principalmente a comunidade do entorno, na organização da Biblioteca Social Fábio Luz (que possui um acervo que vai desde anarquismo até literatura, filosofia e livros escolares) e na oficina de literatura e cinema com os jovens da comunidade. No CCS também funciona o Núcleo de Pesquisas Marques da Costa, responsável por produzir artigos e pesquisas sobre a história do movimento operário e do movimento anarquista no Rio de Janeiro, onde editamos também um informativo chamado “Emecê”, reunindo pesquisadores afins. A função primordial do CCS é tornar-se não só uma referência para os movimentos sociais do Rio de Janeiro, mas abrir as portas para iniciativas autônomas e que contribuam para a formação política e social da comunidade em seu entorno. O CCS vem cumprindo modestamente estes objetivos.

Nossa última e mais recente frente, chamada de agroecológica, ou Anarquismo e Natureza foi criada a partir de um trabalho específico desenvolvido principalmente em Seropédica (cidade rural do Rio de Janeiro) e na Baixada Fluminense, e da atuação desses militantes no Núcleo de Saúde e Alimentação Germinal, que por alguns anos organizou atividades no Centro de Cultura Social (CCS-RJ), apoiando também, atividades comunitárias ligadas ao movimento sem teto e de agricultores urbanos.

O que começou com a atuação dos nossos militantes em grupos agroecológicos da região (Grupo de Agricultura Ecológica – GAE e Associação dos Produtores Autônomos da Cidade e do Campo – APAC), resultou na atuação da frente em assentamentos do MST e com pequenos agricultores da região. A frente também integra, por meio dos movimentos em que está inserida, a Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ), que é uma rede de grupos e movimentos sociais rurais do estado do Rio de Janeiro que luta principalmente contra a expansão do agronegócio, dos transgênicos e no fortalecimento das iniciativas agroecológicas. Entendemos que agroecologia só pode tornar-se uma alternativa de ruptura com o capitalismo, quando conectada aos movimentos que lutam pela terra e pelo controle da produção no campo a partir de uma perspectiva de ação direta.

Jon: Qual são as funções das frentes em relação à organização específica e os movimentos populares?

FARJ: Em relação à organização específica, as frentes não são grupos dentro da organização, mas partes integrantes da FARJ. A divisão em frentes se dá mais por uma questão de organizar melhor o trabalho militante. A autonomia das frentes é operativa, ou seja, está subordinada à linha estratégica definida coletivamente em nosso conselho federal e conectada aos princípios e ao programa da organização. Isto é fundamental para que tenhamos os mesmos horizontes de luta. Sem isto, o trabalho seria impossível de ser feito e rapidamente descambaria para o “ativismo pelo ativismo”, o que seria um desperdício de energia terrível.

Acontece, por exemplo, apesar de não muito rotineiro, de militantes migrarem de uma frente para outra; seja por demandas coletivas da organização ou por incapacidade temporária (ou facilidade) destes em atuarem em determinado espaço.

As frentes surgiram das necessidades concretas dos movimentos que atuamos e das condições da organização para operar e coordenar a atuação anarquista nestes espaços.

No que diz respeito aos movimentos populares, temos a intenção basicamente de fortalecê-los; difundindo pelo exemplo, pela prática política e pela ética, princípios de autonomia, ação direta e horizontalidade. Como já falamos, não acreditamos em movimentos sociais “anarquistas”, isto seria retirar a grande maioria dos militantes dos movimentos e, por isso, condenar o anarquismo aos guetos ou aos círculos limitados. Contudo, difundir os valores libertários é garantir que os movimentos não sejam nem aparelhados por partidos e governos, nem que tomem rumos reformistas. A atuação das frentes se dá neste sentido. Em trabalhar para que a autonomia dos movimentos e a combatividade sejam garantidas; e atuar para que os movimentos se organizem cada vez mais e alcancem horizontes revolucionários.

Obviamente, a difusão do anarquismo nos movimentos, acontece naturalmente no desenrolar das nossas práticas enquanto militantes, mesmo que não seja um fim, se dá neste sentido, sempre respeitando as escolhas e posições pessoais dos militantes que o integram.

Jon: Há trabalhos fora destas três frentes? Em caso afirmativo, qual tipo de trabalho?

FARJ: Há alguns trabalhos transversais que estamos inseridos, como a Universidade Popular, onde vários companheiros das frentes estão envolvidos. A Universidade Popular é um projeto de educação popular que atua basicamente com cursos e oficinas de formação política e social em comunidades, núcleos de desempregados, favelas, ocupações, assentamentos, etc. Há também os que não necessariamente foram formalizados em uma frente específica. Alguns companheiros atuam em seus respectivos sindicatos ou em suas entidades estudantis, mas priorizam sempre o trabalho que lhes foi confiado em suas respectivas frentes. Não temos formalizado uma frente sindical, pelas condições descritas anteriormente, mas é uma possibilidade em aberto.

Evitar sobrecarga de trabalho é fundamental para não esgotar as/os militantes. Obviamente, que toda militância possui certa dose de sacrifício; mas desgastar demasiadamente nossos/as militantes com trabalhos que não estão agrupados em torno de um objetivo comum é completa perda de tempo. Por isto sempre ponderamos coletivamente sobre a abertura de novos trabalhos. Dispersos somos cada vez menos efetivos; por isto, a grande importância das atividades serem operadas no âmbito das frentes. Há trabalhos fora das frentes que se dão no âmbito das secretarias da organização. Não consideramos este trabalho um trabalho propriamente de militância social; mas optamos por definir que cada militante deve realizar um trabalho externo (nas frentes, ou seja, no trabalho destas em seus respectivos movimentos sociais) e um interno (nas secretarias da organização). Isto evita que dentro do grupo, existam pessoas que só façam trabalhos internos “ideológicos”, trabalhos em grande parte confortáveis e livres das contradições e desgastes dos movimentos sociais. Evita também que o/a militante apenas atue socialmente e não se preocupe com as tarefas internas da organização que são muito importantes. É imprescindível para nós, que todo/a militante tenha contato direto e trabalho permanente nos movimentos sociais em que está inserido e que realize algum trabalho interno para a organização.

Jon: Em agosto de 2008 vocês adotam o documento Anarquismo Social e Organização como seu programa. Vocês poderiam descrever como este documento foi concebido e o processo que culminou na sua adoção?

FARJ: Já há algum tempo tentávamos sistematizar alguns debates surgidos no interior da organização. Estas reflexões foram feitas a partir da nossa experiência de militância social operada pelas frentes. O programa se constituiu enquanto uma formalização de algumas idéias, que dizem respeito não só a nossa concepção de anarquismo, mas também de resgate, tanto histórico como ideológico, de concepções de organização que compõe a trajetória do movimento anarquista. Precisávamos também definir melhor nossos horizontes e formalizar alguns métodos, resolvendo diferenças de concepção e sistematizando reflexões coletivas.

O processo de formalização do programa foi feito não só a partir do acúmulo de leitura coletiva que tínhamos; ou seja, de acúmulo teórico, mas também surgiu a partir das reflexões das frentes em suas dificuldades, sucessos e insucessos na militância social. O programa surgiu de nossa prática política, modesta, diga-se de passagem, mas intensamente rica em contribuições.

Iniciamos então, uma discussão interna, onde distribuímos responsáveis por contribuir com o texto “final”. A leitura de todos os materiais, a contribuição individual e coletiva fora de certa forma longa e cansativa, mas importante para termos algum horizonte estratégico. O trabalho foi grande, já que paralelamente à isto, nossa militância não podia ser interrompida. Depois de muito esforço e intensa discussão coletiva, conseguimos sistematizar este material. O fundamental deste processo foi que conseguimos agregar os/as militantes da organização, o que, resolveu as assimetrias ideológicas e contribuiu enormemente para nossa autoformação.

Obviamente, encaramos que o programa não é uma cláusula pétrea, nem uma bíblia sagrada. Avaliamos que alguns ajustes, frutos de incorreções, podem (e devem) ser feitos posteriormente; é normal que isto aconteça. Contudo o mais importante foi dar uma contribuição não apenas a nossa prática, mas ao conjunto do movimento anarquista.

Sem dúvida nenhuma, podemos dizer que a repercussão do programa foi muito maior do que esperávamos! O que nos deu muita satisfação, mas por outro lado, nos impôs mais responsabilidades e também nos tornou mais cônscios de nossas tarefas.

Jon: A FARJ recentemente entrou no Fórum do Anarquismo Organizado (FAO) no Brasil. O que é o FAO e seus objetivos?

FARJ: O Fórum do Anarquismo Organizado é um fórum que reúne uma série de organizações específicas e grupos anarquistas em torno de uma perspectiva comum de atuação anarquista organizada nos movimentos sociais e populares. É um espaço de debate e articulação entre organizações, grupos e indivíduos anarquistas que trabalham ou têm a intenção de trabalhar utilizando como base os princípios e a estratégia do anarquismo especifista.

O objetivo maior do FAO é criar as condições para a construção de uma organização anarquista no Brasil. Tarefa que sabemos não ser de curto prazo, mas que precisa ser iniciada desde já. A necessidade de um projeto minimamente articulado dos anarquistas em nível nacional é fundamental para que consigamos retomar a força da proposta libertária.

Jon: Quais são as implicações práticas da entrada da FARJ no FAO? E por que demorou tanto tempo para a FARJ participar?

FARJ: Por enquanto compartilhar e articular minimamente propostas gerais. Discutir e debater não só nossas práticas políticas, mas questões teóricas que nos parecem importantes para empreender ações comuns, calcadas nas diferentes realidades locais em que os grupos atuam.

Quando o processo do FAO iniciou, optamos por construir nossa organização internamente e consolidar nossos trabalhos, o que avaliamos hoje, como uma opção muito acertada, já que fomos definindo melhor questões estratégicas e desenvolvendo nossa prática militante. Isso ocorreu, em grande medida, pois havia divergências em torno de questões práticas, que diziam respeito a atuação de outra organização anarquista no Rio de Janeiro, que além de infelizmente impedir a nossa entrada no Fórum, logo depois, rompeu com o FAO e acusou, após sua saída, todos os outros grupos e organizações anarquistas de “revisionistas” e “ecletistas” (termo curiosamente adotado pelo leninismo em muitos de seus textos). Aproximaram-se assim, de uma posição teórica reivindicada como “bakuninista”, acusando Malatesta e Kropotkin de serem pensadores “revisionistas”.

Paralelamente, voltamos a restabelecer contato com vários grupos e organizações anarquistas. Isto aconteceu naturalmente a partir do encontro de nossos militantes nos fóruns das entidades de classe e movimentos sociais que estes participam. As perspectivas de entrada no FAO tornaram-se concretas.

É importante ressaltar que houve muita maturidade política de todos os envolvidos para superar antigas questões. Isto foi fundamental para resolvermos problemas específicos e avançarmos em torno de uma proposta comum. Não há como construir um fórum ou uma organização de âmbito nacional, sem que consigamos discutir fraternalmente todos os problemas que se colocam diante desta imensa tarefa.

Achamos que o FAO foi muito feliz pelo caminho escolhido, conseguindo agregar os grupos e organizações que agora o compõem. Há ainda, a possibilidade de outras organizações, muito brevemente, integrarem o FAO. Só de sabermos que há outros companheiros e companheiras atuando em suas respectivas localidades com uma perspectiva de anarquismo organizado, nos dá grandes esperanças nos caminhos da transformação social.

Jon: A África do Sul já hospedou a Copa do Mundo de Futebol, e o Rio de Janeiro será uma “FIFA Host City” para a Copa de 2014. Que impactos ou efeitos vocês acham que isto terá na cidade, política e economicamente, assim como nos movimentos sociais populares como os quais vocês trabalham? Algumas coisas já estão acontecendo?

FARJ: Em 2007, na realização dos jogos Pan-Americanos (PAN), os movimentos sociais já denunciavam o processo de “limpeza urbana” efetuado para receber as delegações estrangeiras e os turistas. O PAN foi um pequeno treino das elites no estado do Rio de Janeiro e do Brasil para a realização de um plano muito mais ambicioso, que é o de transformar o Rio de Janeiro numa cidade essencialmente turística e aberta ao grande capital internacional.

O sonho das elites criou o pesadelo dos explorados quando a coalização das três esferas de governo, Lula, Sérgio Cabral (governador do Rio de Janeiro) e Eduardo Paes (prefeito do Rio de Janeiro) associados a grandes empresários nacionais e internacionais, iniciaram a “adaptação” da cidade à Copa do Mundo e às Olimpíadas.

O plano que teve início no Pan-Americano se desenvolveu com mais força nessas últimas gestões, com pouco acúmulo de força dos movimentos sociais para conseguir barrar estes projetos. Como nós (e outros movimentos sociais e grupos políticos autônomos) alertamos, muitos movimentos sociais que optaram pelo caminho de ilusões dos mecanismos legais, se viram confrontados com um estado cada vez mais “endurecido”, fruto do pacto político das elites, que removeu estrategicamente setores um pouco mais progressistas de suas fileiras e canais institucionais para efetivarem seu projeto com a casta mais reacionária que puderam contar.

As implicações políticas e sociais são terríveis.

Ao adaptar a cidade às exigências da FIFA e de outros organismos do capitalismo internacional, se desenvolve uma política de “tolerância zero” muito semelhante ao modelo estadunidense de repressão. Temos como exemplos desta política de extermínio, o aumento do salário e das gratificações da polícia militar do estado do Rio de Janeiro (enquanto os professores das escolas estaduais no Rio de Janeiro possuem um dos menores pisos salariais do país), a construção de unidades policiais nas favelas e nas periferias (UPP’s – Unidades de Polícia “Pacificadora”) para controle da pobreza e extermínio dos descontentes e a política de despejos e remoções de ocupações e comunidades pobres. A polícia do Rio de Janeiro é a que mais mata no Brasil!

Para termos idéia, um arranjo institucional chamado “Choque de Ordem”, uma espécie de AI-5 [Dispositivo jurídico do estado de exceção da ditadura civil-militar de 1964 que cassava mandatos, suspendia habeas-corpus e outras garantias constitucionais “legais”.] municipalizado, foi posto em prática pela prefeitura. Os resultados foram despejos, remoções, repressão e ataque aos/às trabalhadores/as.

O que assistimos é um processo crescente de militarização da cidade à serviço do projeto nacional das elites que provavelmente será exportado para outros estados brasileiros quando necessário. Pelo histórico da cidade, podemos dizer que o Rio de Janeiro é uma espécie de laboratório social para as elites econômicas e políticas que dominam o Brasil. A promessa de vários candidatos à presidência, de criação de um ministério da segurança, já revela a dimensão no âmbito do governo federal de como será tratada a questão social daqui para frente.

Na questão econômica temos grandes ganhos para os empresários e capitalistas, enquanto que para os trabalhadores informais (camelôs) sobra a repressão e a precariedade. O aumento do contingente da Guarda Municipal (guarda militar da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro) prova que o recrudescimento social é terrível. A especulação imobiliária avança desenfreadamente. As conseqüências são a gentrificação e a periferização dos mais pobres; a exclusão daqueles que não podem pagar altos aluguéis ou comprar casas nas áreas valorizadas. Podemos dizer abertamente que a valorização dos terrenos na cidade do Rio de Janeiro se dá a partir de um projeto de “cidade ideal” das elites: neste projeto se combate a pobreza combatendo os pobres.

Para os movimentos sociais a conjuntura é muito difícil. A repressão, a criminalização e a perseguição política durante a Copa, e por que não dizer, até o extermínio físico dos descontentes é uma possibilidade que deve ser encarada com seriedade e preocupação. Na Copa do Mundo e nas Olimpíadas é provável que isto cresça, com respaldo da mídia e de grande parte da classe média. A conjuntura hoje em nosso estado, guardadas às devidas proporções históricas, é muito semelhante ao período da ditadura militar. Há um fascismo institucional em curso.

Jon: Pelo menos na minha organização, e possivelmente em outros grupos de tradição plataformista ou especifista, tentamos duramente buscar um equilíbrio entre a necessidade de aproximar e admitir novos militantes, aumentando sua capacidade e suas atividades, e o nível de unidade teórica e tática. Vocês poderiam falar um pouco sobre o processo o que a FARJ usa para aproximar novos militantes e quais são os requisitos para fazer parte da organização, tanto como “militante”, quanto como “apoio”?

FARJ: Bom, é importante entender a chegada de novos companheiros e companheiras e a necessidade de integrá-los na dinâmica da organização como um “bom problema” de uma organização política anarquista, uma federação pública, mas que não é totalmente “aberta”, pois possui critérios definidos, mas não completamente rígidos, para os que desejarem integrá-la. Dois critérios são importantes, desenvolver trabalho social, e ter concordância com a proposta da organização.

A aproximação acontece de diferentes formas. Os/as companheiros/as podem nos conhecer e trabalhar conosco nos movimentos sociais, e a partir deste trabalho, podem acabar demonstrando interesse em integrar nossa organização. Achamos que esta é uma das melhores formas de se aproximar dos/as novos/as integrantes, pois se trata da possibilidade de atuar junto aos trabalhos sociais desenvolvidos nos movimentos, dando-lhes a possibilidade de com a prática, conhecer nossos trabalhos políticos.

Mas há casos distintos, como outros companheiros e companheiras que nos conhecem a partir de nossos materiais, como o jornal Libera, ou pelos espaços anarquistas onde atuamos diretamente, como o CELIP, e a partir destes se interessam pela organização a partir de um vínculo estritamente ideológico.

É importante que o companheiro ou companheira que tenha interesse em integrar a organização, esteja desenvolvendo trabalho junto aos movimentos sociais: trabalho estudantil, comunitário, sindical, com sem tetos e sem terras, com desempregados/as, com agricultores/as, etc. Os locais onde estamos atuando são considerados por nós como um dos melhores espaços de aproximação.

Há também o caso de companheiros/as que mesmo a distância, seja fora do estado, ou até de outras regiões do país, querem apoiar e participar da FARJ, pois se reconhecem nos nossos documentos (especialmente Anarquismo Social e Organização) e se propõem a integrar o círculo de militantes de apoio da FARJ.

Para integrar o nível de apoio o/a companheiro/a geralmente manifesta interesse em apoiar a organização. Essa conversa é levada para discussão coletiva, onde se fala, sobretudo, da militância do/a pretendente. Sempre que um(a) novo/a companheiro/a pede ingresso como apoio um dos/as nossos/as militantes fica com a responsabilidade de repassar documentos e textos que buscam situar e tirar as dúvidas do novo militante, que dizem respeito tanto a nossa formulação como sobre nossa prática política. É importante não perdermos nosso acúmulo e socializarmos nossas reflexões.

O ingresso no círculo de militantes inclui maiores responsabilidades e comprometimento, e é uma conseqüência do primeiro trabalho.

Isto só se dá quando o/a novo/a companheiro/a já vem trabalhando junto a uma das frentes como apoio, e já está ciente das discussões próprias do movimento social que participa e dos materiais da organização. Isto é importante, pois evita a militância “alienada”, que costumamos observar nas organizações hierárquicas dos partidos políticos eleitorais ou “revolucionários”. É importante que todo/a militante anarquista possa aplicar a linha política da organização, e esteja preparado minimamente para o trabalho político que a organização se propõe a realizar.

Este/a companheiro/a é integrado/a também a FARJ à medida que declara seu interesse. Por isto, é preciso estabelecer um grau de confiança, por que o trabalho anarquista não pode ser construído apenas com uma afinidade teórica abstrata. Este laço de solidariedade, respeito e confiança no/a companheiro/a se dá na luta, se não, a unidade é puramente artificial, ou pior, baseada apenas em laços afetivos, que sabemos que existem em toda a organização, mas que não podem ser os critérios objetivos de uma prática política.

A dinâmica é simples. Após um tempo integrando o círculo de apoio, estes/as companheiros/as podem integrar o círculo de militantes da organização se assim desejarem, assumindo com isto suas novas responsabilidades. É importante que a iniciativa de integrar o círculo de militantes parta do/a próprio/a interessado/a e seja referendada pelo coletivo.

É importante frisar: os novos compas (que moram no Rio de Janeiro) serão integrados na medida que participam dos trabalhos sociais e têm acordos com as propostas da FARJ, mas nunca somente a partir de acordos ideológicos que não resultem em concordância com a prática política da federação. Já os/as que estão a distância podem apoiar a partir da concordância ideológica e da prática social que desenvolvem em sua cidades de moradia.

Sabemos que sempre vai haver assimetria de conhecimentos teóricos e práticos e diferentes aptidões entre velhos e novos companheiros e companheiras. Mas a organização, que é sempre uma construção coletiva e não um agregado de indivíduos, deve criar formas para tentar nivelar os conhecimentos mínimos necessários aos trabalhos políticos e ou sociais. Os membros da organização devem também se preparar individualmente para trabalhos teóricos e práticos, em ambos os níveis, tanto no social, quanto no político.

Coletivamente resolvemos as assimetrias realizando seminários internos e construindo textos coletivos a partir de leituras em comum ou discussão em grupo.

Jon: Vocês acham que esses processos de aproximação e de construção de unidade tática e teórica, além dos critérios de entrada na organização, podem variar conforme as condições políticas e sociais de um determinado local e de sua “tradição” libertária? Como?

FARJ: Sim. Achamos que a realidade não responde apenas às nossas vontades, e a organização deve estar pronta para atuar em diferentes conjunturas e contextos, sem se burocratizar ou cristalizar modelos que não atendam as diversas realidades enfrentadas pela militância anarquista. Seja no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.

O Brasil recentemente saiu de um período ditatorial e ingressou num suposto regime democrático. E a história dos países latino-americanos é repleta de períodos ditatoriais. Aqui mesmo tivemos dois momentos assim, de 1930 até 1945 e de 1964 a 1985, e temos que trabalhar conscientes que a história pode se “repetir”. Também estamos conscientes que a realidade da militância no nosso país, até mesmo dentro de um estado pequeno em se tratando de Brasil, como o Rio de Janeiro, apresenta diferenças e especificidades que não podem ser negligenciadas. Fazer política no interior do estado do RJ, ou mesmo, na Baixada Fluminense, região metropolitana da cidade, é trabalhar em um ambiente mais hostil do que aquele encontrado na capital do estado.

Mas, a pergunta que você fez é como adaptar os critérios de aproximação e entrada à necessidade de mantermos uma unidade teórica e estratégica? Seja em momentos de maior ou menor repressão e à luz de diferentes tradições libertárias. Achamos que isso pode ser pensado a luz de experiências práticas, tal como a da FAU, que já atravessou momentos de ditadura e momentos democráticos, e precisou se adaptar para não deixar de construir sua militância.

E nossa organização é muito jovem, com sete anos apenas; e de fato por iniciarmos nossa militância em um período de “redemocratização” estamos atuando com essa realidade, que nos permite editar jornais anarquistas, fazer atividades em universidade e sindicatos, etc, coisas que são inviáveis em um regime ditatorial. É certo que se a repressão aumentar teremos que realizar todo este trabalho de aproximação e de ingresso na organização em outras bases, menos públicas e menos abertas, de forma a garantir os trabalhos da organização e a vida dos militantes.

Falamos isso para sustentar uma posição de que não adianta pegar um livro de receitas e tentar aplicá-lo completamente em nossa realidade. Uma das características básicas de uma organização quer permanecer no tempo poder influir sobre a realidade, é que ela deve saber observar a conjuntura e a partir daí adaptar sua atuação.

Por exemplo, na FARJ, demoramos algum tempo até atingirmos o nível de unidade que temos hoje e nem por isso achamos que a unidade menor, que existia no início, era motivo para um “racha”. Uma organização que está se conformando, principalmente em localidades que não tenham grande tradição de militância, precisa ter calma.

Nós defendemos completamente a unidade teórica e tática, mas se estivermos criando uma organização, por exemplo, não podemos “apertar” muito a exigência de unidade sem discussões amplas, pois isso limitaria muito o número de militantes da organização (como em muitos grupos trotskistas).

Assim, é necessário ter paciência; a unidade se atinge por meio de processos de formação, discussão e fundamentalmente de prática política da organização nas lutas. Por isso, tem que se dar “tempo ao tempo”, ou seja, forjar as bases mínimas de união para reunir um grupo de companheiros/as para iniciar as discussões e os trabalhos e neste contexto, ir “apertando” a unidade, a organicidade etc. A militância também é uma cultura e as pessoas não se modificam tão rápido. Elas vão ter concordância com os documentos ou com os trabalhos da organização, aos poucos vão vendo a necessidade de disciplina, de regularidade nos trabalhos, do aprofundamento teórico etc. Não adianta chegar um militante novo e você “jogar” um monte exigências em cima dele pois muito provavelmente ele sairá da organização.

Deve ser um exercício permanente saber o quanto “apertar a porca”, pois, se é verdade que quando está pouco apertada pode haver problemas, se apertar muito ela espana. Ou seja, a organização deve ter em mente o aumento permanente de unidade, mas sempre “apertando a porca” na medida correta, sem exagerar e nem deixar de apertar.

Às vezes pode ser melhor começar com linhas mais básicas e ir desenvolvendo a discussão ao caminhar do que tentar fechar muito todos os pontos no início.

Finalmente, devemos dizer que a organicidade e a unidade da organização anarquista devem acompanhar os trabalhos dos movimentos populares. Não adianta querer ter uma organização anarquista com um nível máximo de organicidade e unidade se há poucas lutas, se elas estão muito desorganizadas etc. Como um complemento às lutas dos movimentos, a organização anarquista deve acompanhar seu nível de desenvolvimento, sem nunca esquecer a conjuntura; com um recrudescimento das lutas sociais, é natural que a organização anarquista tenha de se adaptar a isso.

Jon: Querem falar mais alguma coisa?

FARJ: Apenas desejar força aos companheiros/as anarquistas, em especial, os/as da Zabalaza. Esperamos que os movimentos sociais autônomos avancem e que os grupos e organizações anarquistas possam humildemente contribuir com um horizonte de luta que se pretenda revolucionário e que esta seja tarefa do conjunto dos oprimidos e oprimidas. Ainda cabem sonhos no mundo.



Para mais informações sobre a FARJ, ver:

- Entrevista com a Federação Anarquista do Rio de Janeiro, realizada entre dezembro de 2007 e fevereiro de 2008 por a revista Divergences.
- O programa da FARJ, Anarquismo Social e Organização

Related Link: http://www.farj.org

Anarquismo Social e Organização
Anarquismo Social e Organização

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Matéria de capa / Estados Unidos - América Rebelde - Uma entrevista com Noam Chomsky

As manipulações da mídia e a fabricação do consentimento, o isolamento político do governo norte-americano, o totalitarismo e a essência da democracia: estes e outros temas sob a ótica de um dos mais importantes intelectuais de nossa época.

por Daniel Mermet

Tão respeitado nos pequenos seminários acadêmicos quanto nas grandes reuniões do Fórum Social Mundial, Noam Chomsky é um dos mais importantes intelectuais da atualidade. Com 78 anos, esse professor do renomado MIT (o Instituto de Tecnologia de Massachusetts) tornou-se uma referência mundial, seja no domínio da lingüística, sua área de especialização científica, seja nas fileiras da esquerda, seu campo de atuação política. Como lingüista, Chomsky teve o nome internacionalmente projetado por sua teoria acerca dos princípios estruturais inatos da linguagem. Como político, tem-se destacado na crítica à globalização neoliberal e aos mecanismos de controle dos regimes totalitários e das sociedades ditas democráticas.

De origem judaica (seu pai, professor em escola religiosa, foi um dos grandes eruditos da língua hebraica), não poupa críticas a Israel, pelo tratamento dado aos palestinos e pela prática do que qualifica como “terrorismo de Estado”. Nascido em Filadélfia (o berço da identidade nacional norte-americana), é um dos principais opositores da política imperialista dos Estados Unidos, em geral, e do governo George W. Bush, em particular. Intelectual engajado (que se define como “socialista libertário”), vem sendo tão radical na condenação do stalinismo quanto do nazismo. Sua independência intelectual tem-lhe valido pesados ataques, vindos de várias direções. Mas também lhe tem granjeado amplas simpatias e apoios.

Nesta entrevista exclusiva a Le Monde Diplomatique, ele discorre extensamente sobre alguns dos temas mais relevantes do mundo contemporâneo (nota da edição brasileira).

Diplomatique
Comecemos pela questão da mídia. Na França, em maio de 2005, por ocasião do referendo sobre o Tratado da Constituição Européia, a maioria dos meios de comunicação de massa era partidária do “sim”. No entanto, 55% dos franceses votaram “não”. O poder de manipulação da mídia não parece, portanto, absoluto. Esse voto dos cidadãos representaria um “não” também aos meios de comunicação?

Chomsky O trabalho sobre a manipulação midiática ou a fábrica do consentimento, feito por mim e Edward Herman, não aborda a questão dos efeitos das mídias sobre o público1. É um assunto complicado, mas as poucas pesquisas detalhadas sugerem que a influência das mídias é mais expressiva na parcela da população com maior escolaridade. A massa da opinião pública parece menos dependente do discurso dos meios de comunicação.

Tomemos como exemplo a eventualidade de uma guerra contra o Irã: 75% dos norte-americanos acham que os Estados Unidos deveriam pôr fim às ameaças militares e privilegiar a busca de um acordo pela via diplomática. Pesquisas conduzidas por institutos ocidentais mostram que a opinião pública dos Estados Unidos e a do Irã convergem também sobre certos aspectos da questão nuclear: a esmagadora maioria das populações dos dois países acha que a zona que se estende de Israel ao Irã deveria estar totalmente livre de artefatos nucleares, inclusive os que hoje estão nas mãos das tropas norte-americanas na região. Ora, para se encontrar esse tipo de opinião na mídia, é preciso procurar muito.

Quanto aos principais partidos políticos norte-americanos, nenhum defende este ponto-de-vista. Se o Irã e os Estados Unidos fossem autênticas democracias, no seio das quais a maioria realmente determinasse as políticas públicas, o impasse atual sobre a questão nuclear estaria sem dúvida resolvido.

Há outros casos parecidos. No que se refere, por exemplo, ao orçamento federal dos Estados Unidos, a maioria dos norte-americanos deseja uma redução das despesas militares e um aumento correspondente das despesas sociais, dos créditos depositados para as Nações Unidas, da ajuda humanitária e econômica internacional. Deseja também a anulação da redução de impostos que beneficia os mais ricos, decidida por Bush.

Em todos esses aspectos, a política da Casa Branca é contrária aos anseios da opinião pública. Mas as pesquisas de opinião que revelam essa persistente oposição pública raramente são publicadas pelas mídias. Resulta que não somente os cidadãos são descartados dos centros de decisão política, como também são mantidos na ignorância sobre o real estado da opinião pública.

Existe uma preocupação internacional com o abissal déficit duplo dos Estados Unidos: o déficit comercial e o déficit orçamentário. Estes somente existem em estreita relação com um terceiro: o déficit democrático, que aumentar sem cessar, não somente nos Estados Unidos, mas em todo o mundo ocidental.

Diplomatique Toda vez que perguntamos a uma estrela do jornalismo ou a um apresentador de grande jornal da televisão se ele sofre pressões ou censura, a resposta é invariavelmente “não”. O jornalista diz que é totalmente livre, que somente expressa suas próprias convicções. Conhecemos bem os mecanismos de dominação ideológica das ditaduras. Mas como funciona o controle do pensamento em uma sociedade democrática?

Chomsky Quando os jornalistas são questionados, eles respondem de fato: “nenhuma pressão é feita sobre mim, escrevo o que quero”. E isso é verdade. Apenas deveríamos acrescentar que, se eles assumissem posições contrárias à norma dominante, não escreveriam mais seus editoriais. Não se trata de uma regra absoluta, é claro. Eu mesmo sou publicado pela mídia norte-americana. Os Estados Unidos não são um país totalitário. Mas ninguém que não satisfaça exigências mínimas terá chance de chegar à posição de comentarista respeitável. Esta é, aliás, uma das grandes diferenças entre o sistema de propaganda de um Estado totalitário e a maneira de agir das sociedades democráticas. Com certo exagero, nos países totalitários, o Estado decide a linha a ser seguida e todos devem se conformar. As sociedades democráticas funcionam de outra forma: a linha jamais é anunciada como tal; ela é subliminar. Realizamos, de certa forma, uma “lavagem cerebral em liberdade”. Na grande mídia, mesmo os debates apaixonados se situam na esfera dos parâmetros implicitamente consentidos – o que mantém na marginalidade muitos pontos de vista contrários.

O sistema de controle das sociedades democráticas é mais eficaz; ele insinua a linha dirigente como o ar que respiramos. Não percebemos, e, por vezes, nos imaginamos no centro de um debate particularmente vigoroso. No fundo, é infinitamente mais teatral do que nos sistemas totalitários.

Tomemos, por exemplo, o caso da Alemanha dos anos 1930. Temos a tendência a esquecer, mas era então o país mais avançado da Europa, na vanguarda em matéria de ciência, técnica, arte, literatura e filosofia. Depois, em pouquíssimo tempo, houve uma grande reviravolta, e a Alemanha tornou-se o mais letal, o mais bárbaro Estado da história humana.

Tudo isso foi feito espalhando-se o medo. Medo dos bolcheviques, dos judeus, dos ciganos, dos norte-americanos – em suma, de todos aqueles que, segundo os nazistas, ameaçavam o coração da civilização européia, herdeira direta da civilização grega. Era o que escrevia o filósofo Martin Heidegger em 1935. Ora, a maior parte da mídia alemã, que bombardeou a população com esse tipo de mensagem, usou as mesmas técnicas de marketing utilizadas por publicitários americanos.

Não esqueçamos de como uma ideologia se afirma. Para dominar, a violência não basta. É preciso uma justificativa de outra natureza. Assim, quando uma pessoa exerce poder sobre outra, seja um ditador, um colonizador, um burocrata, um patrão ou um marido, ele precisa de uma ideologia justificadora, que sempre redunda na mesma coisa: a dominação é exercida para “o bem” do dominado. Em outras palavras, o poder se apresenta sempre como altruísta, desinteressado, generoso.

Nos anos 1930, as regras da propaganda nazista consistiam, por exemplo, em escolher palavras simples e repeti-las sem parar, associando-lhes emoções, como o medo. Quando Hitler invadiu os Sudetos, em 1938, ele o fez invocando os objetivos mais nobres e caritativos: a necessidade de uma “intervenção humanitária” para impedir a “limpeza étnica” da população de língua alemã e garantir que todos pudessem viver sob a “asa protetora” da Alemanha, com o apoio da mais avançada potência do mundo no domínio da cultura.

Em propaganda, se de alguma maneira nada mudou depois de Atenas, houve certamente aperfeiçoamentos. Os instrumentos sofisticaram-se muito, em particular e paradoxalmente nos países mais livres do mundo: o Reino Unido e os Estados Unidos. Foi lá, não em outra parte, que a moderna indústria das relações públicas, isto é, a fábrica da opinião ou a propaganda, nasceu nos anos 1920.

Estes dois países haviam de fato progredido em matéria de direitos democráticos, com o voto feminino, a liberdade de expressão etc. A tal ponto que o desejo de liberdade não podia mais ser contido somente pela violência estatal. Convertemo-nos, assim, às tecnologias da “fábrica do consentimento”2. A indústria das relações públicas produz, no sentido próprio dos termos, consentimento, aceitação, submissão. Ela controla as idéias, os pensamentos, os espíritos. Em relação ao totalitarismo, foi um grande progresso: é muito mais agradável sofrer o efeito de uma publicidade que se ver em uma sala de tortura.

Nos Estados Unidos, a liberdade de expressão é protegida em um grau sem paralelo em qualquer outro país do mundo. Isso é muito recente. Desde os anos 60, a Suprema Corte deu grande proteção e garantia à liberdade de expressão, o que traduz, na minha opinião, um princípio fundamental estabelecido desde o século XVIII pelo Iluminismo. A Suprema Corte afirma que a palavra é livre com a única ressalva de não participar de ato criminoso. Se, por exemplo, entro em uma loja para roubar, um de meus cúmplices tem uma arma, e eu digo “atire!”, isso não será protegido pela Constituição. Quanto ao resto, o motivo deve ser particularmente grave para que a liberdade de expressão seja posta em xeque. A Suprema Corte já reafirmou este princípio até mesmo em favor dos membros do Ku Klux Klan. Na França, no Reino Unido e, me parece, no resto da Europa, a liberdade de expressão é definida de maneira muito mais restritiva.

A meu ver, a questão essencial é: o Estado tem o direito de definir qual é a verdade histórica e punir quem dela se afasta? O pensamento tende a se acomodar a uma prática stalinista. Os intelectuais franceses têm dificuldades em admitir que é bem esta a sua inclinação. No entanto, a recusa de tal abordagem não deveria comportar exceção. O Estado não deveria possuir nenhum meio de punir quem quer que pretenda que o Sol gire em torno da Terra. O princípio da liberdade de expressão tem algo de muito elementar: ou o defendemos no caso de opiniões que detestamos, ou renunciamos por completo à sua defesa. Mesmo Hitler e Stalin admitiam a liberdade de expressão daqueles que defendiam seus pontos de vista3.

Acrescento que há algo de muito perturbador e mesmo de escandaloso em debater essas questões dois séculos após Voltaire, que, como sabemos, declarava: “Odeio as suas opiniões, mas daria a minha vida para que você pudesse expressá-las”. Seria prestar um triste desserviço às vítimas do holocausto adotar uma das políticas fundamentais de seus carrascos.

Diplomatique Em um de seu livros, você comenta a frase de Milton Friedman “ter lucro é a própria essência da democracia”...

Chomsky A bem dizer, as duas coisas são de tal forma contrárias que não há sequer comentário possível. A finalidade da democracia é que as pessoas possam decidir suas próprias vidas e fazer as escolhas políticas que lhes concernem. A realização de lucros é uma patologia de nossas sociedades, associada a estruturas particulares. Em uma sociedade decente, ética, a preocupação com o lucro seria marginal. Tome como exemplo meu departamento universitário, no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Lá, alguns cientistas trabalham duro para ganhar muito dinheiro. Mas são considerados um pouco marginais, um pouco perturbados, quase casos patológicos. O espírito que anima a comunidade acadêmica é, antes, o da descoberta, a um só tempo por inteesse pessoal e para o bem de todos.

Diplomatique Em texto que lhe é dedicado, Jean Ziegler escreve: “Existem três totalitarismos: o totalitarismo stalinista, o totalitarismo nazista, e, agora, o ‘tina’3.” Você compararia esses três totalitarismos?

Chomsky Eu não os colocaria no mesmo plano. Combater o “tina” é afrontar uma construção intelectual que não pode ser comparada aos campos de concentração ou ao gulag. Além disso, a política norte-americana suscita oposição em escala planetária. Na América Latina, a Argentina e a Venezuela expulsaram o FMI. E os Estados Unidos não puderam recorrer ao que seria a norma há vinte ou trinta anos: o golpe militar. O programa econômico neoliberal que foi imposto à América Latina durante os anos 80 e 90 é hoje rejeitado no continente. Vemos esta mesma oposição à globalização econômica por toda parte.

O movimento global pela justiça, sempre sob o foco da mídia na época de cada reunião do Fórum Social Mundial, trabalha na realidade durante todo o ano. É um fenômeno muito recente na história, que marca talvez o início de uma verdadeira Internacional. Seu principal cavalo de batalha é a existência de uma alternativa. Aliás, que melhor exemplo de uma globalização diferente do que o próprio Fórum Social Mundial? As mídias hostis chamam aqueles que se opõem à globalização neoliberal de “os antiglobalização”, quando, na verdade, eles lutam por uma outra globalização, a globalização dos povos.

Podemos observar o contraste entre uns e outros, porque, no mesmo momento, ocorre o Fórum Econômico Mundial, que trabalha para a integração econômica planetária, mas somente em prol dos interesses das altas financeiras, dos bancos e dos fundos de pensão – potências que controlam também as mídias. É a concepção deles de integração global: uma integração a serviço dos investidores. As mídias dominantes entendem que somente essa integração global merece o título oficial de globalização. Eis um belo exemplo de funcionamento da propaganda ideológica nas sociedades democráticas. A tal ponto essa propaganda é eficaz que mesmo os participantes do Fórum Social aceitam às vezes a qualificação pejorativa de “antimundialistas”. Em Porto Alegre, compareci ao Fórum e participei da conferência mundial dos camponeses. Eles representam, sozinhos, a maior parte da população do planeta...

Diplomatique Você é classificado na categoria dos anarquistas ou dos socialistas libertários. Na democracia, tal como você a concebe, qual seria o lugar do Estado?

Chomsky Vivemos neste mundo, não em um universo imaginário. Então, neste mundo, existem instituições tirânicas, que são as grandes empresas. É o que há de mais próximo das instituições totalitárias. Elas não têm, por assim dizer, que prestar qualquer esclarecimento ao público ou à sociedade. Agem como predadoras, tendo como presas as outras empresas. Para se defender, as populações dispõem apenas de um instrumento: o Estado. Mas ele não é um escudo muito eficaz, pois, em geral, está estreitamente ligado aos predadores. Há, no entanto, uma diferença que não se pode negligenciar: enquanto, por exemplo, a General Electric não deve satisfações a ninguém, o Estado deve regularmente se explicar à população.

Quando a democracia se tiver alargado ao ponto em que os cidadãos controlem os meios de produção e de troca e participem no funcionamento e na direção do conjunto em que vivem, então o Estado poderá, pouco a pouco, desaparecer. Ele será substituído por associações voluntárias sediadas nos locais de trabalho e de moradia.

Diplomatique Seria uma nova forma de soviets? Qual a diferença em relação aos soviets da Rússia revolucionária?

Chomsky Seriam soviets, sim. Mas lembremos que, na Rússia, a primeira coisa que Lênin e Trotsky destruíram, logo após a Revolução de Outubro, foram os soviets: os conselhos de operários e todas as instituições democráticas. Lênin e Trotsky foram, neste sentido, os piores inimigos do socialismo no século XX. Porque, marxistas ortodoxos como eram, eles consideravam que uma sociedade atrasada como a da Rússia de sua época não poderia passar diretamente ao socialismo sem ser precipitada à força na industrialização.

Em 1989, no momento do desmoronamento do regime comunista, eu pensei que este desmoronamento, paradoxalmente, representava uma vitória para o socialismo. Pois o socialismo, tal como o concebo, implica, no mínimo, eu repito, o controle democrático da produção, das trocas e de outras dimensões da existência humana.

No entanto, os dois principais sistemas de propaganda conspiraram para afirmar que o sistema tirânico implantado por Lênin e Trotsky e depois transformado em monstruosidade por Stálin era o “socialismo”. Os dirigentes ocidentais não fizeram mais do que se deleitar com esse uso absurdo e escandaloso do termo, que lhes permitiu difamar o socialismo autêntico durante décadas.

Com igual entusiasmo, mas em sentido contrário, o sistema de propaganda soviético tentou explorar a seu proveito a simpatia que os ideais socialistas autênticos inspiravam nas massas de trabalhadores.

DiplomatiqueNão é verdade que, segundo os princípios anarquistas, todas as formas de auto-organização acabaram por desmoronar?

Chomsky Não há “princípios anarquistas” fixos, uma espécie de catecismo libertário ao qual se deva prestar juramento. O anarquismo, ao menos como o vejo, é um movimento do pensamento e da ação que busca identificar as estruturas de autoridade e dominação, exigindo que elas se justifiquem, e, se elas se mostram incapazes, como acontece freqüentemente, tenta superá-las.

Longe de ter “desmoronado”, o anarquismo, o pensamento libertário, vai muito bem. Ele é a fonte de muitos progressos reais. Formas de opressão e injustiça que mal eram reconhecidas, e muito menos combatidas, não são hoje mais admitidas. É uma conquista, um avanço para o conjunto dos seres humanos, não uma derrota.



1 Herman, Edward e Chomsky, Noam: Manufacturing Nova York, Pantheon, 2002.
2 Expressão do ensaísta norte-americano Walter Lippman, que, a partir dos anos 1920, pondo em dúvida a capacidade do homem comum se determinar com sabedoria, propôs que as elites cultas “lapidassem” a informação antes que ela atingisse a massa.
3 Tina: palavra formada com as iniciais da expressão inglesa “there is no alternative” (não há alternativa), utilizada por Margaret Thatcher para proclamar o caráter inelutável do capitalismo neoliberal.



Entrevista enviado por e-mail por Caleb e D.ebie.
Obrigado!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ENTREVISTA COM: EGRÉGORA


EGRÉGORA está presente em todas as coletividades. É o somatório de energias físicas, emocionais e mentais, geradas pela reunião de duas ou mais pessoas, quando se reúnem por qualquer afinidade. Todos os agrupamentos humanos permitem isso, onde as energias dos indivíduos se unem formando um espírito autônomo, capaz de realizar no mundo visível as aspirações transmitidas ao mundo invisível pela coletividade gerada. Quando a energia é liberada, tem a tendência de manter ou influenciar o meio ao redor. Quando várias pessoas têm um objetivo comum, sua energia se agrupa, forma-se uma egrégora, onde todo pensamento e energia gerada tem existência, podendo circular livremente. Assim, a música tem seu espírito, assim o Hard core circula sua egrégora. Compartilhando o mesmo objetivo, sendo através dos versos, das batidas, dos acordes, expressamos os gestos, idéias, dúvidas e pensamentos. Tudo isso se conecta com a energia dos que desejam o mesmo. Nos unimos, com o sentimento de banda, porque não desejamos parar. Porque não mudamos as idéias. ESTE É O NOSSO OBJETIVO COMUM. Um só caminho.




A Egrégora é uma banda de hardcore soteropolitana, que tem em sua linha de frente uma garota de vocal agressivo (Carol) e conta com membros de diversas outras bandas importantes para o underground baiano como: Veredicto, Lumpen, Mais Treta... O Tomanacara teve o prazer de entrevistar essa banda que recentemente lançou seu primeiro material, uma demo que está nas ruas pra quem quiser garantir. Sobre isso e muito mais confiram na entrevista abaixo, com certeza vai absorver algo positivo:

1. Antes de qualquer pergunta, não posso esquecer de perguntar: Quem é “Ismael”?

Carol: Ismael é um gorila personagem do livro “Ismael”, de Daniel Quinn, autor conhecido por escrever coisas do gênero em temas como ambientalismo, civilização (primitivismo), supremacia humana, etc.
O enredo se encontra num diálogo entre um homem e um gorila, “Ismael”, provocando-o quanto origem das civilizações, a supremacia humana.
A música Ismael vem de reflexões do tipo “como as coisas vieram a ser como são?”, o cativeiro e as diferentes culturas, em especial a dos largadores. Na real, leiam o livro, ahahahah!


2. Ok, matada minha curiosidade vamos as apresentações. Quem é a Egrégora?

Banda de hardcore formada por:

Carol Reis(vocal): ex-vocalista da Caminhando Sobre Espinhos, participa da Cooperativa Rango Vegan, Associação Húmus, feminista e do WenDo. Vegan, sxe, uma das sobreviventes, ahahah.

Fernando (baixo): fotógrafo, jornalista, skatista de alma (praticante quando dá tempo hehe), integrante do coletivo Arterisco, e ex-vocalista das bandas Veredicto e Anti DOPS.

João Paulo Rangel (bateria): Já foi baterista das mais variadas bandas de hardcore da cena de Salvador, como Escato, Mais Treta, Caminhando Sobre Espinhos, Sem acordo, Lumpen. Colaborador da Rango Vegan, Associação Húmus, vegan, sxe, pride. Lutador de kung fu (o das voadoras, ahahah!)

Túlio (guitarra): Ex-baxista da lumpen, tocava guitarra na Caminhando Sobre Espinhos, baixista da Mais Treta, freela da Escato (hahaha). Design “do it you self”, participa da Cooperativa Rango Vegan, Associação Húmus, vegan, sxe, mais um sobrevivente, ahahah.


3. Sabemos que Fernando dominava muito bem o mic, a julgar pelo excelente disco de estréia da Veredicto, banda que o mesmo tocava, mas particularmente não sabia desse dom no baixo. Como descobriram isso? E como se deu a formação da Egrégora?


Fernando: Dom no baixo? Você ta crazy, é mermão? Hahahaha Eu apenas toco umas notas e faço uns barulhos com as quatro cordas, man! Mas então... essa fita de eu começar a tocar baixo foi mais ou menos na época da Veredicto mesmo. Eu queria ter outras bandas, de outros estilos nos quais meu bom senso me mostrava que não rolava de eu ser vocal. Daí escolhi o baixo, que foi o instrumento que mais me identifiquei.

Antes da Egrégora, os demais integrantes tocavam na Caminhando Sobre Espinhos e num certo momento ficaram sem baixista e me chamaram pra tocar na banda, mas acabou que rolaram uns contratempos e a banda acabou. Depois de um tempo, o pessoal voltou a entrar em contato com a idéia de formar a Egrégora e aqui estamos.


4. Vocês lançaram recentemente o primeiro material de vocês, e estão em fase de divulgação deste. Como se deu a gravação? E falem um pouco das participações que rola nele.


Fernando: A gravação foi feita no Estúdio Estopim, por nosso amigo Fabiano Passos. O instrumental foi captado ao vivo, em um dia, e os vocais foram adicionados posteriormente.

Carol: Nossa, demorou a sair o material, mas foi muito importante o momento que aconteceu. Há tempos, em conversas, questionamos o lance do tempo das bandas, não o tempo cronológico, mas o tempo em que cabe experimentar o processo de existir uma banda. Hoje, parece que as idéias não são tão importantes, o rolê, o que se produz aqui nisso. Ter banda é ter um produto final de exposição para os outros, para internet, é ter que “ser foda” e ter referências que aprisionam e são excludentes, isso sempre fugiu do punk. Não queríamos que fosse assim, escrevemos de acordo com as inspirações, as músicas são feitas quando realmente rola inspiração, os shows enfim... Não cabe julgar a quem consegue fazer as coisas rápidas e tem facilidades, mas como essa relação se tornou descartável.

Sobre as participações, é uma parada que curto muito em outros estilos como no rap ou no reggae, e como no hardcore é nós por nós, isso sempre fica mais difícil. Tivemos a sorte de estarem em Salvador no momento em que estávamos gravando, Léo e Carol. Léo, que era da Escato e hoje mora na Espanha, é uma influência de hardcore/punk e tem um vocal que gostamos muito. Em especial queria fazer esse dueto com um homem, apesar que temos uma participação constante do vocal de Fernando. Isto me deixa muito feliz em estar brincando com ele nos vocais, sou fã e já disse ahahaha.

A outra participação foi de Carol (que canta na Clangor, banda de São Paulo), amiga de longas datas. Acompanho sua história de banda há tempos, sou fã de mulheres no vocal, especialmente quando são muito boas e Carol para mim é uma dessas, sutil, agressiva, caótica, pensei como seria a introdução e saiu igualzinho, linda!

Destacamos também a participação de Fabiano, que mesmo com as dificuldades de uma gravação ao vivo, conseguiu colocar o material numa qualidade superior ao que se espera numa gravação desse tipo.


5. Eu tratei de comprar logo o meu EP da Egrégora e na primeira audição dá pra perceber que a banda não deixou que se perdesse aquela energia do show, acho bem legal isso. Outra coisa que gosto bastante, e que ainda me fazem comprar CDs, é o material gráfico do mesmo, e o da Egrégora está simplório e perfeito! De quem foi a idéia da capa, encarte e tudo que envolve a parte gráfica do CD?


Carol e Túlio: Contribuições de todos da banda com idéias, mas quem mandou bem mesmo foi Túlio, que há tempos está se arriscando nas artes gráficas. Gostaríamos que fosse uma demo, mas que tivesse algo que fosse diferenciado, um cuidado com o material (até por que temos um designer na banda, né? ahahah), as letras expostas, textos... Não queríamos também usar esse discurso "faça você mesmo" pra fazer algo tosco e sem conceito, buscando na simplicidade que falamos nas letras alguns conceitos que achamos importantes, como a clareza de idéias, o equilíbrio, o preto no branco, coisas simples, fortes e verdadeiras. Fizemos de acordo com o que era possível para todos. Também concordo em estar lindo!


6. Quando cheguei em casa com o EP, meu primo viu a capa e perguntou: “Essa banda é de reggae”? Ai o chamei para ouvir comigo, ele se impressionou. Acho que quem não conhece a banda vai ter essa impressão ao ver a capa, de ser uma banda de reggae. De quem foi idéia da capa e vocês seguem o rastafarianismo?

Carol: Não, não seguimos o rastafarianismo, mas temos total respeito e admiração. É uma filosofia que nos inspira, mas tem certas coisas que são conflituosas com as nossas práticas, por isso nossa relação com isso vai até aqui. A idéia da capa é uma referência à auto-confiança, força e orgulho representada pela figura do leão dentro de algumas culturas. Esta também é uma tendência de não ver e identificar a música apenas pelo hardcore. Outros estilos, outras galeras, como exemplo do rap, o reggae, experimental, rock, dub, musicas independentes em geral, tem e vem propagando idéias e ações muito mais ousadas e faça-você-mesmo do que o próprio hardcore se proprôs a ser. Não há mais como limitar. O valor do que é verdadeiro não está mais para uma escolha apenas.

Fernando: Eu particularmente não sigo nenhuma doutrina ou religião específica. Mas isso não afeta em nada o fato de que fé e espiritualidade são coisas extremamente importantes pra mim e a positividade presente no rastafarianismo é algo que tem me influenciado e conquistado bastante meu respeito e admiração, até mesmo através da mensagem de algumas bandas de reggae que nós da banda escutamos e que acho que, de certa forma, acabam nos influenciando também.



7. O My Space da banda é /egregoratao, e a banda tem duas músicas “Tão I” e “Tão II”. Alguma relação com o Taoísmo?



Carol: Total! É uma referência na lata mesmo, o Tao nos inspirou em várias letras da Egrégora, mais especificamente posso falar de mim, da importância dos ensinamentos, das reflexões equivocadas que temos do mundo, da vida. Coisas como superar algo, como ter que mostrar-se forte, sempre achamos que esse é o melhor caminho, e algumas passagens do “Tao” dizem diferente:

“Não se deve mostrar ser forte, deixar que as pessoas percebam que é inteligente, lembre da importância da ausência da ação, do eu e dos desejos, da humildade, do ser natural... A maioria das pessoas acham que ser forte é ser bom, mas a força será quebrada, enquanto a fraqueza permanecerá inata”. Tipo isso, há permissão para vários sentimentos, um não deve suprimir o outro, sem arrogâncias, com equilíbrio, com práticas, menos idéias, mais ação! O meu feminismo tá no taoísmo, a idéia do “um só caminho” não dois, nem três também está lá. O coletivo e o indivíduo juntamente com a natureza se harmonizando, tudo isto é uma questão de interpretação, por que se você define já não é mais o “Tao”.



8. “Somos todos iguais”?


Fernando: Essa é complicada, hein! Mas sendo realista, a resposta é não. Como diz Racionais (inclusive, de onde plagiamos o título de uma das nossas músicas),
"o mundo é diferente da ponte pra cá".

Carol: Essa frase é muito boa para uma letra de hardcore, por que na verdade a maioria das pessoas envolvidas acreditavam que isso realmente tinha significado real. Engano! Depois de tempos vivenciando práticas, idéias, filosofias nas quais estávamos todos juntos, existiam nos mesmos espaços as mulheres, os pobres, os negros, os inteligentes, os ricos, os brancos, os “academizados”, percebíamos que as pessoas que sempre poderiam sair, parar de arriscar e viver a sua “vida comum” eram pessoas que estão em condições favoráveis. Nunca seremos iguais, se o ponto de retorno não for o mesmo caminho para todos.


9. Qual a visão que vocês têm do hardcore em Salvador?


Fernando: Como “cena”, a visão que eu tenho no momento é bem cética. As pessoas que vejo participando, tendo bandas, freqüentando shows são ¼ dos mesmos que eu via quando comecei a freqüentar esse meio. Do tempo que acompanho (e que considero pouco), posso afirmar que como “cena” o pior estágio em que chegamos é agora (escassez de bandas, espaços, eventos...) e de forma alguma falo isso como um observador. Somos parte disso e, portanto, também temos parte dessa culpa.

Mas tenho minhas dúvidas se isso se restringe a Salvador. Na verdade, acho que é uma parada em nível nacional. Mas, como em toda crise, algumas coisas bastante positivas têm acontecido: apesar de poucas, as bandas que vêm surgindo são bem legais; o pessoal de cidades próximas como Simões Filho e Cruz das Almas tem se movimentado; o Toma Na Cara é outro exemplo; e o fato de que esse ¼ sobrevivente que mencionei acima ama o hardcore e é cabeça dura o bastante pra continuar acreditando e realizando algumas coisas, por menores que sejam. É como diz uma grande banda aí: “Veja, eles ainda acreditam em se unir, lutar, ganhar, poder...”


Carol: Para mim as pessoas cansaram de arriscar. Elas sentiram o peso da responsabilidade de estudar, do trampo, da família e me parece que os modelos que não cabiam muito para juventude não seguraram as pessoas no hardcore quando elas começaram a crescer. Isto é geral, e Salvador não fugiu disso. A força do capitalismo juntamente com a não atratividade do que o hardcore se tornou para muitos. Ninguém conseguiu definir o que queria com isso, por que ao mesmo tempo em que parou de ser atrativo, muitos começaram a se aproximar de coisas que eram totalmente distantes disso. Salvador sempre teve uma fama de ter uma cena forte por que era política, misturada e ativa e hoje em dia, muito longe disso... A Lumpen ainda era o grande reflexo disso, o restante está se satisfazendo apenas em fazer uma gravação foda, viajar, enfim... é legal, mas é pouco! Mas quem tá correndo no hardcore vai continuar correndo em qualquer lugar... Enquanto isso continuo fortalecendo o que dentro disso tudo, sinto que é nosso!


10. “Natureza é conflito, sociedade é submissão”, no encarte de vocês consta essa citação de uma música da banda curitibana Colligere, perguntar se é uma influência é totalmente desnecessário, mas quais são as outras influências da banda?


Fernando: Como influências musicais mais diretas, acho que podemos citar Umläut, Catharsis, Dub Trio, Remains of the Day, Escato, Black Sabbath, Converge, Municipal Waste e mais uma porrada de coisas. Todo mundo na banda ouve muita coisa, de vários estilos, mas acho que essas são as que influenciam mais diretamente.

Carol: Uma questão de gênero, ahahaha: Makiladoras, Walls of Jericho, Abuso Sonoro, Clangor, Triste Fim de Rosilene, Anomie, Crisis...


11. Eu e meu amigo, também colaborador do Tomanacara, Dill temos uma opinião de que a “cena” de Salvador se divide em “I wanna be cult” e “Extremuxos”. A Egrégora não se enquadra nesses padrões, então qual o público da Egrégora?

Fernando: Acho que a gente ainda não tem um público definido e, na real, nem temos essa pretensão – no sentido de limitar a um determinado tipo de público. Quanto mais gente dos mais variados meios chegarem ao nosso som e à nossa mensagem, pra nós será ainda mais prazeroso. Nós nos conhecemos no hardcore e esse é nosso principal meio comum, mas todos na banda participam de outros tipos de público (é bem possível encontrar a gente em shows bem diferentes do tipo de música que fazemos) e achamos isso bastante positivo. Não queremos de forma alguma limitar o que fazemos a uma determinada cena, seja ela qual for. Acredito que a música e a mensagem que pode ser passada através dela são muito maiores do que esse tipo de coisa.



12. Na letra de “Vida Simples”, vocês falam sobre a busca de “Um só caminho...”. Qual seria esse caminho?


Fernando: O caminho que une o de todos os que buscam algo positivo, que buscam o bem, que seguem em seus caminhos com respeito e compreensão aos dos outros irmãos que estão em suas lutas diárias. É algo que remete à idéia de você se enxergar no seu irmão, de saber que, independente do tipo de música que você ouve, da sua cor, do esporte que você pratica, da sua preferência sexual ou de em qual local do planeta você mora, se você segue seu caminho em busca do bem, se você constrói seu caminho sem desrespeitar o do outro, nós seguimos juntos em um só caminho.

Carol e João: Um só caminho é um sentimento verdadeiro, não rola de falar da boca para fora, mesmo que faça, com certeza vai pensar pelos exemplos que Fernando deu acima, se de fato está de acordo com isso tudo. É isso, caminho é para percorrer, não existe ponto de chegada, o importante é não segregam é estar juntos, ser parceiras, colocar algumas diferenças de lado e unir outras. É você estar fazendo as coisas acontecerem com outras pessoas de maneira independente e para as próprias pessoas, um ajudando o outro.... É um estado de espírito... que seja positivo,né? ahahhaha


13. E quem quiser comprar o EP da Egrégora, onde acha?

Vixeee, espalhamos por alguns amigos pelo Brasil, tipo, Josimas e Lázaro (São Paulo), Pedro Catarro (Mossoró), Dani e Aquino (Aracajú), Juba Espinhos (Brasília). Aqui em Salvador (ou qualquer outro lugar que a gente venha a passar) podem pegar com a gente mesmo, nos shows principalmente, e também entrar em contato através de email, telefone, orkut... que a gente se acha. Seguem algumas formas de contato com a gente (seja pra adquirir a demo ou pra trocar uma ideia, conhecer mais, marcar shows, paquerar...):


Emails: fernandogomesft@hotmail.com; tulioxxx@hotmail.com; xpaulo_rangelx@hotmail.com; xgirl_pridex@hotmail.com

Comunidade no Orkut:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=99653434

Myspace:
http://www.myspace.com/egregoratao



14. Fiquem a vontade para falar o que quiserem, e sobre o que quiserem.


Fernando: Primeiro, obrigado ao Toma Na Cara pelo convite, por ainda acreditar e pela diferença que têm feito. Valeu a quem leu a entrevista até aqui, a quem já se interessou pela banda de alguma forma e a todos que deram algum tipo de apoio à gente, seja lá como tenha sido.

Escutem música, o mundo precisa mais disso e tem muita coisa boa por aí.

Proteja os seus, aproveite ao máximo os momentos que são seus de verdade e odeie um pouco mais seu chefe (se parar pra pensar, você bem provavelmente verá que tem motivos pra isso).

Carol: Nossa! Obrigada de montão a Dudu e a galera do Tomanacara, valeu pela atenção de sempre e pelas perguntas interessantes que permitiram surgir pensamentos importantes. Isso aí, o meu espírito é que se tem algo bacana para fazer, vamos nos juntar, colocar algumas coisas de lado, estamos aê: Egrégora, Carol, enfim... na resistência, na luta diária dos nossos demônios, buscando equilíbrio e paz sempre!

O valeu de sempre aos meus compas de bandas; João, Túlio e Fernando, é muito forte estar tocando com eles, a galera que dá muita força para gente e tem gostado bastante do nosso som e as minha amigas de sempre que me dão a maior força: Lú, Pri e Dani. E a minha gata pirracenta, Nina Simone. Beijos a todas!


Entrevista cedida por xDudux do blog TOMANACARA.

sábado, 10 de outubro de 2009

Violentamente Pacífico

O vídeo a seguir foi apresentado e gravado por Gabriel Teixeira no XII Festival Nacional a Imagem em 5 Minutos 2008.
Feito no Bairro da Paz (Periferia de Salvador-BA) entrevistando Ras Mc Léo Carlos, cidadão morador do bairro.

domingo, 6 de setembro de 2009

ENTREVISTA: DESECRATION



Bom galera, a pouco tempo Marcolino do Desecration me passou essa entrevista feita pelo Bonga (Disköntroll/Nuvem Negra Zine) e achei muito foda, pedi autorização a ele para que vocês também conheçam um pouco mais dessa banda de Death Metal Anarchist, muito boa.

Essa entrevista foi publicada no Zine Nuvem Negra, Número # 01, e quem quiser receber e conferir o Zine que está cheio de matérias interessantes, basta escrever para o amigo Bonga no seguinte e-mail: nuvem.negra.zine@gmail.com

Apóiem os Zines !!! Apóiem a cultura alternativa, contracultural e anarquista !!!

Abraços Libertários – Marcolino Jeremias & Desecration.

P.S.: Em breve novos sons e novo visual em nosso Myspace, aguardem...

Entrevista de Bonga (Nuvem Negra Zine/Disköntroll) com Marcolino (Desecration), Junho de 2009.


1 - Primeiramente, obrigado ao Desecration por responder a esta entrevista. Sempre achei ótima a iniciativa da banda de tocar death metal com letras anarquistas. Isso foi natural ou a banda foi formada já com essa idéia? Porque escolheram este nome?

Bonga, muito obrigado você pela entrevista (gostei muito das perguntas!) e pela oportunidade!!! Faz muito tempo que não respondo uma entrevista para um zine, mas acho que ainda lembro como se faz, vamos ver... Bem, comecei escutando heavy & thrash metal entre 1988-1989. A cena death metal ainda estava se consolidando internacionalmente e eu me lembro do lançamento de praticamente todos os discos de death metal desse período. Quando formamos o Desecration em outubro de 1991, nossa intenção era tocar um som entre o thrash/death metal, que era a referência de som mais extremo que tínhamos. No começo, eu até tentei escrever letras que não falassem sobre questões políticas/sociais, mas não consegui... Eu acredito que optar por tocar death metal com letras políticas e, depois, explicitamente anarquistas foi algo natural. Os discos de metal que eram lançados nesse período (entre 1988-1991), mesmo vindo de bandas que iniciaram suas histórias abordando outros temas, também falavam sobre questões sociais, exemplos: Testament – The New Order (1988), Anthrax - Among The Living (1987, mas lançado no Brasil em 1988), Metallica - …And Justice For All (1988), Dorsal Atlântica – Searching For The Light (1989), MX – Mental Slavery (1989), Nuclear Assault – Handle With Care (1989), Sepultura – Beneath The Remains (1989), Exodus – Fabulous Disaster (1989), Death – Spiritual Healing (1990), Sacred Reich – The American Way (1990), Overdose – Addicted To Reality (1990), Dark Angel – Time Does Not Heal (1990), Forbidden – Twisted Into Form (1990), Kreator – Coma Of Souls (1990), Megadeth – Rust In Peace (1990), Korzus – Mass Illusion (1991), Sarcófago – The Laws Of Scourge (1991), e também discos de bandas como: Napalm Death – From Enslavement To Obliteration (1988), Terrorizer – World Downfall (1989), Defecation – Purity Dilution (1989). Esses eram basicamente alguns dos discos que escutávamos e que nos influenciaram muito no início, inclusive com suas letras. No Brasil, o grindcore começou muito vinculado com a cena death metal e até black metal (muitas vezes, inclusive, contra a cena thrash metal da época, que para essas pessoas era uma cena muito “comercial”), ao contrário do que aconteceu em outros países em que o grindcore surgiu como um modo mais extremo de se tocar o hardcore/punk. É só conferir quais foram as influências de bandas como Napalm Death, Extreme Noise Terror, Fear Of God, Seven Minutes Of Nausea e outras... Com o passar do tempo, o Desecration passou cada vez mais a se identificar com as idéias e posturas da cena grindcore/punk, mas sem perder suas raízes musicais que vinham da cena extrema do metal. Entre 1994-1995, já estávamos bastante envolvidos com a cena anarco-punk, mas sem deixar de fazer apresentações com bandas e público especificamente metal. Fazendo uma rápida avaliação, acho que durante todo esse tempo, conseguimos fazer um bom equilíbrio (logicamente sem agradar todos, o que é impossível!), entre as duas cenas (punk & metal), reforçando que muitas bandas da cena metal já falavam sobre questões sociais antes de nós. Acredito que as primeiras bandas de death metal do Brasil a falar sobre anarquismo foram o Necrorrosion (São Paulo) e depois o Desecration. Já o nome Desecration (Profanação), escolhemos, pois soava bem death metal para a época, numa cena que tinha bandas como: Benediction, Malevolent Creation, Suffocation, Immolation, Incantation e outras. Profanação significa desonrar, injuriar, ofender e tratar com irreverência coisas supostamente sagradas, o que tinha/têm muito a ver com nossa postura anti-religiosa, iconoclasta, anticlerical e ateísta e que, por tudo isso, tornou-se um bom nome para a banda.


2 - A apresentação ao vivo do Desecration conta com vários discursos libertários entre as músicas, tratando de temas como homofobia, sexismo, ateísmo, etc. Como vocês procuram aplicar a teoria na prática do dia-a-dia? Vocês acreditam na implantação do anarquismo ou tratam a anarquia como um estilo de vida?

O indivíduo quando encontra as idéias libertárias e se identifica com elas, ele necessariamente passa por uma transformação pessoal para se livrar dos dogmas e preconceitos que lhe foram impostos desde seu nascimento, por uma sociedade autoritária, repressora, capitalista, religiosa e moralista. Isso seria um aspecto do “colocar em prática” o anarquismo. Lógico que os resquícios de pensamento e comportamento adquiridos durante toda uma vida formada em meios aos bombardeamentos cotidianos de propaganda capitalista extremamente viciante, não vão desaparecer do dia para a noite, leva um bom tempo, alguns toda uma existência e outros nunca vão se livrar dessas amarras completamente. De qualquer forma, essa, a meu ver, é a primeira tarefa do anarquista. É inconcebível um anarquista preconceituoso, patriota, religioso e narcisista. O anarquista, acima de tudo, deve ter compromisso, ética, convicção, solidariedade e lutar pela causa revolucionária. Deve ser incapaz de colocar nas costas do próximo o que é de sua responsabilidade ou de seu dever. Também acredito que o anarquista deva ser, dentro do possível, um militante completo, ou seja, que atue, escreva, fale em público e procure sanar as possíveis deficiências que possua. Para mim, são duas vias: a individual e a coletiva. Não adianta o cara ser um anarquista bastante atuante e chegar em seu ambiente privado e ser autoritário com a sua companheira, família, colegas de trabalho e demais pessoas do seu convívio particular, pois será um anarquista da boca para fora ou para inglês ver... Como também não adianta o cara achar que vivendo sua vida seguindo os seus conceitos libertários para si só, sem passar isso adiante, sem lutar para edificar isso coletivamente, que ele já está “vivenciando” o seu anarquismo do seu jeito, pois é impossível viver o anarquismo sozinho, só com sua família, trancado no seu apartamento, em meio a toda uma selvageria e barbárie capitalista (vivemos todos em uma sociedade onde ninguém é auto-suficiente). Concluindo, é necessário um equilíbrio entre o individual e o coletivo. Ou em outras palavras: o anarquismo é uma filosofia de vida, mas, ao mesmo tempo é um método de luta contra o capitalismo e o autoritarismo. Se você tira uma dessas características do anarquismo, você desvirtua o anarquismo.


3- Quais são as influências musicais da banda? E na hora de escrever as letras quais bandas, escritores, fatos influenciam vocês?

Algumas das bandas que nos influenciaram e influenciam musicalmente bastante são: Assück, Groinchurn, Rot, Napalm Death, Cannibal Corpse, Constrito, Morbid Angel, Agathocles, Deicide, Nyctophobic, Terrorizer, Catharsis, Extreme Noise Terror, Krisiun, Timebomb, Bolt Thrower, Nile, Obituary, Necrorrosion, Brutal Truth, Monstrosity, Point Of No Return, Cancer, Pungent Stench e muitas outras... Para escrever as letras, a realidade nua e crua é uma fonte inesgotável de inspiração. Lógico que os escritos e exemplos arrebatadores que nos deixaram nossos companheiros e companheiras antepassados, também são de suma importância, tais como: Florentino de Carvalho, João Perdigão Gutierrez, Manoel Perdigão Saavedra, José Oiticica, Diamantino Augusto, Edgar Rodrigues, Carlo Aldegheri, José Prol, Belarmino Fernandes, José Alves, Joaquim Santos e Silva, Edgard Leuenroth, Antonio Martinez, Jaime Cubero, Maria Lacerda de Moura, Neno Vasco, Maria Antonia Soares, Manuel Perez, Noam Chomsky, Gaetano Bresci, Émile Henry, Ravachol, Leon Czolgozs, Sofia Garrido, Buenaventura Durruti, Francisco Ascaso, Angelina Soares, Friedrich Kniestedt, Francisco Ferrer y Guardia, Juan Garcia Oliver, Severino Di Giovanni, Emma Goldman, Alexandre Berkman, Miguel Arcángel Roscigna, Louise Michel, João Peres Bouças, Pedro Catallo, Simón Radowitzky, Kurt Wilckens, Élisée Reclus, Nestor Makhno, Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin, Errico Malatesta, Pierre-Joseph Proudhon, Denjiro Kotoku, Nicola Sacco, Bartolomeo Vanzetti, Matilde Magrassi, e inúmeros operários e operárias anônimos que atuaram clandestinamente e deram seu generoso sangue para a causa da emancipação libertária da humanidade.


4 - A banda já mudou de formação durante o longo período na estrada?

Muitas vezes. Já passaram pelo Desecration, nossos amigos: Juquinha (Bateria), Osni (Baixo), Pedro (Guitarra), Robson (Bateria) e Alessandro (Guitarra). Vale a pena dizer que o Juquinha, o Pedro e o Robson continuam tocando até hoje em dia com outras bandas.


5- O Desecration participa da cena hardcore/punk há mais de dez anos. Quais eram os pontos positivos e negativos dentro da cena nos primórdios da banda? E quais são os pontos positivos e negativos de hoje em dia?

Na minha opinião, a principal diferença entre a cena de hoje em dia e a cena de alguns anos atrás, é a seguinte: antes as pessoas tinham uma preocupação em serem “políticos” ou “anarquistas”, ainda que só “esteticamente”, ou seja, nas letras, nos zines, nas camisetas e na maioria dos casos não tinham efetivamente uma participação política libertária (faziam isso para serem aceitos na cena “política”). Hoje as pessoas não possuem, muitas vezes, nem essa “estética”, são completamente desinteressadas politicamente. Alguns podem achar que antes era melhor, pois de uma forma ou de outra havia uma preocupação maior nesse sentido, outros podem afirmar que hoje é melhor, pois as coisas são mais sinceras. Para mim, a situação atual é simplesmente tão ruim quanto a de alguns anos atrás e, seja como for, a cena de ontem e de hoje está muito distante de ser o ideal. Existem outras diferenças (hoje quase não existem grupos/coletivos anarquistas, zines e etc...), mas, eu considero essa a mais visível e importante.


6 - Creio que metade da banda fazia parte do Deadmocracy, incluindo você. Um grupo mais hardcore/punk que o Desecration. Por qual razão a banda acabou? Vocês pretendem voltar?

O Deadmocracy surgiu entre 1994-1995, e terminou em 2001. A formação era: Sabugo (Bateria), Marcelo (Baixo/Vocal) e eu (Guitarra/Vocal). Nessa época, com exceção de mim, ninguém tocava no Desecration. O Marcelo nunca tocou e o Sabugo só foi tocar um tempo depois. Quando o Deadmocracy começou, nossa intenção era tocar um som mais voltado para as raízes punks do grindcore (ou anarco-grindcore, como falávamos, inclusive, acredito que fomos os primeiros a usar esse adjetivo, não tenho certeza...), influenciados basicamente por bandas como: Cripple Bastards, Intestinal Disease, Siege, S.O.B., Lärm, Heresy, Hinfamy, Rot, Discarga Violenta, No Conformity, Bones Erosion, No Sense, Agathocles, Napalm Death, Extreme Noise Terror, Active Minds, Putrid Scum, Deterioration, Patareni, Noise e outras. Durante os seis anos que a banda existiu, eu, por exemplo, nunca tive uma guitarra própria, o Sabugo também não tinha todos os pratos e pedaleira. O Marcelo, depois da turnê na Europa, foi morar na Holanda (depois Espanha). Ficamos sem baixista e também com algumas dificuldades para ensaiar. A Liana (Baixo/Vocal) fez uns ensaios conosco e tocou em uma gig, porém, somando que ainda tinha o Desecration (e nessa fase final, todos do Deadmocracy eram do Desecration), o meu trabalho, o grupo libertário que eu participava, a editora Opúsculo Libertário e etc... Não tínhamos mais tempo livre para nos dedicarmos a banda e, portanto, a banda ficou paralisada até acabar definitivamente. Se pretendemos voltar ? Lógico... Que não !!! Eu e o Sabugo já conversamos várias vezes sobre isso e chegamos a conclusão de que esses “revivals” são um tanto quanto anacrônicos e, portanto, fora da realidade. Fica parecendo coisa de quem não têm nada de novo para oferecer e, de certa forma, vive do passado. Lógico que isso é nossa opinião e achamos que isso não se encaixaria no Deadmocracy. Eu e o Sabugo poderíamos até formar uma banda de grindcore hoje em dia, até chamá-la de “democracia morta”, poderíamos, inclusive, tocar sons antigos do Deadmocracy, mas seria uma banda nova, com novas músicas, não seria mais o Deadmocracy. O Deadmocracy acabou, foi uma experiência de três amigos que não sabiam/não sabem tocar direito, foi muito bom enquanto durou, mas, já era... Não volta mais.


7 - Vocês têm ou já tiveram outras bandas além do Desecration e do Deadmocracy? Qual era a sonoridade?

A Liana fazia vocal, participando esporadicamente em duas bandas de thrash metal do Guarujá, no final dos anos oitenta: Sarcastic & Thrash Beach, geralmente tocando covers. O Eduardo tocou numa banda de death metal (antes de tocar no Desecration) chamada Hematophagy, e numa banda de hardcore (quando já tocava no Desecration) chamada Ódio Positivo, junto com o Sabugo e outras pessoas, nenhuma das duas bandas gravaram ou fizeram apresentações ao vivo. O Sabugo tocou no início do Manifest (crust core), mas não chegou a gravar com eles, nem tocar ao vivo. O Sabugo ainda tocou com o Ódio Positivo, e até pouco tempo estava tocando com o Mamute (rock and roll) e o Contra-Poder (street punk). Curiosidade: eu toquei baixo e o Sabugo bateria, numa apresentação ao vivo de uma banda anarco-punk do Ceará, chamada Ruptura, numa gig em João Pessoa/Paraíba (em 25 de setembro de 1998), pois o baterista e o baixista da banda não puderam comparecer na gig, foi bem legal... Eu e o Alessandro (antigo guitarrista do Desecration) tínhamos um zine chamado Metalmag (o primeiro feito no Guarujá), entre 1990-1991, que chegou a publicar dois números...


8 - Vocês já tiveram a oportunidade de tocar na Europa. Quais os países com as cenas mais fortes e organizadas por lá? Quais foram as bandas mais fodas que vocês dividiram o palco durante a turnê?

Tocamos mais na Alemanha, mas também fizemos gigs na Bélgica, França e Holanda. No geral eles têm uma cena com bastante estrutura principalmente por causa dos Squatts (casas ocupadas) que eles utilizam como locais para gigs e demais eventos culturais. Como os países são muito próximos, existe um bom contato e intercâmbio entre as cenas dos países europeus, fazendo com que sempre tenha turnês acontecendo e gigs praticamente em todos os dias da semana e não apenas Sábado e/ou Domingo, como acontece por aqui. Um detalhe interessante é que a pessoa que organiza uma gig por lá, sempre têm a preocupação de dar uma grana, comida, bebida e um local para a banda descansar, mesmo que na apresentação só apareça quinze pessoas, por exemplo. O organizador de gigs europeu, no geral, entende que se a gig têm pouco público, a culpa não é da banda e ele não vai deixar de cumprir o acordo firmado com a banda por causa disso. Isso foi algo que chamou bastante a nossa atenção, pois não estamos acostumados com isso no Brasil, por uma série de fatores... De qualquer forma, acredito (posso estar enganado) que se a cena brasileira tivesse a estrutura que os europeus têm, estaríamos produzindo mais que eles, e com um caráter mais político/anarquista que eles... A turnê contava todos os dias basicamente com apresentações do Deadmocracy, Entrails Massacre (Alemanha) e Desecration, mas chegamos a tocar com Intestinal Disease (Bélgica), El Corazón Del Sapo (Espanha), Agathocles (Bélgica), Haemorrhage (Espanha), Nyctophobic (Alemanha), Total Fucking Destruction (Estados Unidos), Wojczech (Alemanha) e outras. O Hazie (vocal do Intestinal Disease) e o Burt (baterista do Agathocles) fizeram (em gigs diferentes) uma jam com o Desecration, cantando “Lack Of Personality” do Agathocles, e eu participei de uma apresentação do Total Fucking Destruction, cantando “Grimcorpses” do Cripple Bastards com eles. Tocamos com o Skew Whiff (Bélgica), que tinha membros do Hiatus, porém, achamos os caras bem decadentes: o vocalista muito bêbado, cantava de joelhos e de costas para o público, lendo as letras. Depois encontramos um deles desmaiado lá fora, todo zuado cheio de lixo pelo corpo (inclusive dentro da roupa), que foi jogado pelos outros punks que passavam por ali (temos até foto disso)...


9 - Quais as principais bandas/artistas que estão no tocando no seu aparelho de som atualmente?

Six Feet Under, Clangor, Violator, Crass, MX, ACDC, Deep Purple, Black Sabbath, Racionais Mc’s, Hirax, Dark Angel, Joan Jett, W.O.W., Vida Ruim, Timebomb, The Specials, The Clash, Wild Dogs, Psychotic Waltz, The Stooges, New York Dolls, Motorocker, Sarcófago, Sepultura, Forbidden, Exodus e mais um monte… Eu acredito que sou bastante eclético...


10 - Quais são os planos futuros da banda?

Continuar com o Desecration & completar 20 anos de banda... Não, sério, na verdade acabamos de fazer uma gravação e pretendemos lançá-la em breve... Inclusive, se alguém puder nos ajudar, por favor, entre em contato...


11 - Novamente, muito obrigado pela entrevista! Para terminar, perguntas e respostas rápidas:

- As cinco melhores bandas de todos os tempos?

Mc Fly, ‘N Sync, Five, Back Street Boys e New Kids On The Block... Não consigo fazer um top 10, muito menos um top 5… O Juquinha (ex-Deseccration e Abuso Sonoro, atual Casus Belli) é muito bom nisso !!!


- Deus?

Deus é só uma desculpa que os seres humanos criaram para tentar justificar sua ignorância, suas fraquezas, sua finidade e, de certa forma, sua própria insignificância...


- Obama?

Obama Bin Landen é tão terrorista quanto o Osama. Veja por exemplo sua política em relação ao Afeganistão... Políticos negros são como políticos brancos. O Pitta e até o Nelson Mandela, não conseguiram acabar com o racismo, nem com outras injustiças sociais (o Pitta, por exemplo, nem tentou...), até mesmo porque as injustiças sociais só acabarão quando o povo organizado se mobilizar para erradicá-las definitivamente, e isto, não está de forma alguma ligado as eleições ou a democracia representativa.


- Skinhead/Oi!?

Acredito que não devemos julgar ninguém pelo tipo de música que ela escuta. Na Europa esse movimento começou antes do movimento punk e sem uma visão política definida. No Brasil, o skinhead começou depois das primeiras bandas punks, porém, dentro da cena punk e desde seu início com idéias nacionalistas que são típicas da extrema direita. Nunca tive simpatia pelo movimento skinhead, pois sempre esteve relacionado a muita merda preconceituosa, racista, machista, homofóbica e à violência gratuita. Hoje, no Brasil, existe uma cena jovem de skinheads que se dizem contra os preconceitos, não sei ainda o que esperar dela, pois em muitos casos me parece apenas mais um modismo alimentado pela internet... Só o tempo vai dizer...


- Veganismo?

O Desecration possui membros vegetarianos e vegans. Entendemos o vegetarianismo como uma atitude pessoal e política que está diretamente relacionada a tudo que compramos para nossa alimentação, para nossa vestimenta e que nos leva a dialogar com as pessoas ao nosso redor. A ecologia social deve ser ainda mais estudada por todos que querem transformar radicalmente o meio social em que vivemos, temos o dever de analisar todas as questões que estão diretamente ligadas à vida em sociedade. Não podemos esquecer dos direitos humanos, assim como não podemos esquecer dos direitos dos animais e da natureza, devemos ter a capacidade de compreender que a luta pelos direitos humanos não exclui a luta pelos direitos dos animais e da natureza, muito pelo contrário, devemos enxergar que uma luta complementa a outra. O ser humano também é um animal que pertence ao meio ambiente e que têm sua importância para a natureza como um todo... Dentro disso, vejo o vegetarianismo como uma atitude política libertária pelo meio ambiente, pela ecologia social e contra uma indústria capitalista que transforma milhares de mortes em lucro, por isso somos anarquistas e vegetarianos, pela libertação humana e pela libertação animal. Historicamente, muitos anarquistas, assumiram publicamente sua postura vegetariana, vinculando-a diretamente com sua visão política do anarquismo, alguns exemplos: Élisée Reclus, Liev Tolstoi, Han Ryner, Isaac Puente, Marie-Adele Anciaux & Stephen Mac Say (fundadores da Liga Contra Vivisecção), José Oiticica, Maria Lacerda de Moura, Roberto das Neves, Nicola D’Albenzio, Judith Malina, Julian Beck, Ronnie Lee (antigo membro do London Greenpeace e um dos fundadores da Animal Liberation Front em 1976). Para terminar, podemos citar algumas palavras que Maria Lacerda de Moura (anarquista e vegetariana), escreveu no seu livro “Civilização – Tronco de Escravos”, Editora Civilização Brasileira (Rio de Janeiro), na longínqua data de 1931: “Não compreendo a vivissecção a não ser como um delírio de perversidade inominável, nem chego a ver a vantagem da embriaguez cientifica que põe milhares de cobaias e cães e qualquer espécie de animal à mercê dos cientistas – funcionários públicos – quase vaidosos de fazer sofrer aos ‘mártires da ciência’ em nome de um princípio ou de uma descoberta ou de uma pesquisa ou dos problemáticos benefícios daí resultantes para todo o gênero humano e, as mais das vezes, em nome do salário pago pelo Estado, em nome do ordenado mensal (...) O homem continuará a descer sempre, bem para baixo de todos os símios, na sua maldade de criatura civilizada, (...) para estimular todas as virulências, desde as guerras até o prazer satânico de martirizar os animais em nome do humanitarismo clínico. (...) A crueldade nunca poderá ser um caminho para o aperfeiçoamento humano. A ciência não se adquire com a crueldade (...) Se a fisiologia não pode se adiantar sem infligir horríveis torturas aos animais indefesos, é melhor que a fisiologia fique onde está. A humanidade pode progredir sem a fisiologia, porém, não poderá progredir sem a piedade”.

Bem, Bonga, para finalizar desejo vida longa ao Nuvem Negra zine !!! Espero sinceramente que com o exemplo desse zine surjam outros !!! Todos da cena underground devem apoiar os zines, pois eles são a nossa voz e um reflexo de nossa própria cena !!!


- OFF: Em qual ano foi a turnê de vocês na Europa? Quando a banda começou?

A turnê do Desecration aconteceu entre agosto/setembro de 2000. E a banda foi formada em outubro de 1991.


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